Três leituras de um inédito de Caeiro
Luís Miguel Queirós
Gosto do céu porque não creio que ele seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa algures e algures acaba
E que longe e atrás disso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e terá um fim,
E que antes e depois disso não havia tempo.
Por que há-de ser isto falso? Falso é falar de infinitos
Como se soubéssemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é uma quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.
Proposta de Richard Zenith
Caeiro
Gosto do ceu porque não creio que elle seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa numa parte e numa parte acaba
E que agora e antes d'isso ha absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um principio e tem um fim,
E que antes e depois d'isso não havia tempo.
Porque ha de ser isto falso? Falso é fallar de infinitos
Como se soubessemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é uma quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.
Transcrição de Jeronimo Pizarro
Caeiro
Gosto do céu porque não creio que elle seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa aqui e aqui acaba1
E que longe e atrás d'isso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e terá um fim,
E que antes e depois disso não houve tempo.
Porque há de ser isto falso? Falso é falar do infinito
Como se soubéssemos o que só de ver podemos entender.
Não: tudo é uma partida de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.
1 Variante: Creio que o espaço começa por a parte e na parte acaba.
Transcrição de Maria do Céu Estibeira
a Maria do Céu Estibeira, que está a terminar uma tese sobre a "marginalia" pessoana, e o investigador colombiano Jeronimo Pizarro, da equipa da Edição Crítica, transcreveram, a partir do mesmo manuscrito, o poema inédito de Fernando Pessoa, atribuível ao heterónimo Alberto Caeiro, que se publica nestas páginas.
A versão de Pizarro é a que está reproduzida no postal que o PÚBLICO hoje oferece aos seus leitores, mas incluímo-la aqui, para facilitar a comparação quer com a versão de Estibeira, quer com a de Richard Zenith, que cotejou as duas leituras prévias com o fac-símile do original, chegando a uma proposta de fixação de texto que aceita elementos de ambas mas não coincide com nenhuma delas.
Tradutor de Pessoa e um dos responsáveis pela edição e organização das obras do poeta que vêm saindo na editora Assírio & Alvim, Zenith colaborou, aliás, na versão de Estibeira, feita sobre uma imagem em tamanho natural do manuscrito.
No entanto, quando conseguiu "aumentar muito a imagem", reviu a sua leitura, o que o leva a comentar que "nem sempre é o suporte original que resolve tudo, como por vezes se presume".
Este investigador norte-americano diz que induziu Estibeira a ler "começa por a parte e na parte acaba" como variante do quarto verso - o que, argumenta, "faria sentido, pois Caeiro insiste em que a Natureza é apenas partes, sem um todo". No entanto, acabou por concluir que "a leitura de Jeronimo Pizarro está correcta".
Uma ciência difícil
Ao contrário de Pizarro, Richard Zenith optou por actualizar a ortografia e por dispensar a referência a Caeiro, no topo, por entender que o poeta, tal como fez noutros manuscritos, quis apenas atribuir o texto a este heterónimo.
Ressalvadas minudências ortográficas, porventura atribuíveis a gralhas, a leitura dos três primeiros versos é partilhada pelos três autores.
A partir daqui é que as coisas se complicam, mostrando que a fixação de textos a partir de originais manuscritos não é propriamente uma ciência exacta, ainda que obedeça a regras - também elas, aliás, não consensuais.
Como é facilmente observável na reprodução do manuscrito, Pessoa escreveu uma primeira versão do quarto verso e, depois, acrescentou--lhe outra por cima, mas sem riscar a original. Pizarro, seguindo o critério que vem sendo utilizado na Edição Crítica das obras do poeta, optou pela última hipótese, que leu assim: "Creio que o espaço começa numa parte e numa parte acaba".
Estibeira optou pela hipótese inicial de Pessoa, mas registou a outra como variante. No entanto, onde Pi-
zarro leu duas vezes a palavra "numa", a investigadora leu "por a" e "na".
Zenith optou também pela primeira versão deste verso, mas a sua leitura difere da de Estibeira. Onde esta propõe: "Creio que o espaço começa aqui e aqui acaba", Zenith lê: "Creio que o espaço começa algures e algures acaba".
No entanto, logo no verso seguinte, prefere a hipótese de Estibeira à de Pizarro. A primeira escreveu "E que longe e atrás d'isso há absolutamente nada.".
O segundo propõe "E que agora e antes d'isso ha absolutamente nada". Uma divergência significativa, já que as palavras "agora" e "longe" parecem apontar para sentidos substancialmente diferentes.
A partir daqui, as leituras de Pizarro e Zenith coincidem - salvo no que respeita à ortografia e à declinação do verbo "ter" no sexto verso -, e distinguem-se em vários pontos da de Estibeira. A contradição mais notória surge no penúltimo verso, com esta a ler "partida" onde os outros dois lêem "quantidade".
Já no que respeita ao verso anterior a este, Richard Zenith reconhece que a hipótese adiantada pela investigadora - "Como se soubéssemos o que só de ver podemos entender." - "faria todo o sentido, tendo em conta a suma importância de 'ver' para Caeiro". No entanto, o especialista americano concorda com a versão de Pizarro.
Mais um poema
Zenith acha que a leitura do colombiano é "globalmente mais acertada", mas prefere as versões de Estibeira para os quinto e sexto versos. Manifestando o seu contentamento por "existir, a partir de agora, mais um poema no corpus caeiriano", o investigador sublinha que este "é um exemplo que mostra que a colaboração entre investigadores, directa ou indirecta, é fundamental para chegarmos a fixações de texto mais fiáveis".
O PÚBLICO irá agora tentar ouvir outros pessoanos, e também, novamente, os autores destas versões. Pode ser que se chegue a uma transcrição consensual, e pode bem ser que não.
Num caso ou noutro, os leitores terão ficado a perceber melhor o que é editar o espólio de um poeta que deixou inúmeros textos apenas manuscritos, e às vezes com diversas variantes e correcções.
Algo que se assemelhe a uma edição definitiva de Pessoa, se vier a existir, só provavelmente os nossos netos a irão poder folhear.
Fonte PÚBLICO,PT