sábado, 8 de junio de 2013
miércoles, 5 de junio de 2013
Musica
A obra de Isabel Fraga começou, justamente, pela poesia, com a sua obra
Face (1984) e Pátio Interior (2002), regressando agora com o seu
terceiro livro, que aqui se apresenta, A Música das Esperas. O título,
algo misterioso, joga com a mítica “música das esferas”, de que falaram
os gregos, em especial os pitagóricos e os platónicos, que atribuíam à
música uma origem divina e mágica, sendo responsável pela harmonia do
universo e pela sua beleza. Os mitos de Apolo e de Mársias que dominaram
a cultura grega da harmonia e da música revelam bem que a música tinha
uma importância fundamental na vida humana, que hoje se perdeu. Para os
Antigos, a música concentrava em si um poder mágico, era uma força
anímica e verdadeiramente incorporada na cultura arcaica. Por isso, ela
constituía o elemento fundamental do ritual mágico na Antiguidade, sendo
associada ao poder sagrado e divino dos deuses ou ainda aos elementos
cósmicos. Na Índia, segundo a tradição, o próprio Brahma teria ensinado a
música ao profeta Narada e este, por sua vez, tê-la-ia transmitido aos
homens. E no Egipto o deus Thot teria criado o mundo através de sons.
Também o poeta é um demiurgo que trabalha os poderes mágicos e musicais
da própria língua, redescobrindo nela um sentido oculto, já que lida de
perto com os seus efeitos poderosos. Veja-se, por exemplo, o primeiro
poema do livro, que nos reenvia inequivocamente para essa dimensão
“cantável” da linguagem:
1
No princípio era o verso
E o verso estava com Deus
E o universo era Deus.
Nele estava a rima
A métrica e a vida.
E a vida era a luz dos homens.
A transgressão evidente no primeiro verso, substituindo a palavra “verbo” por “verso” convoca, desde logo, a dimensão poética (e demiúrgica) da palavra, mas também a da música, quando a poeta diz “Nele estava a rima/A métrica e a vida.” A associação é clara, entre o ritmo do verso e o ritmo do sopro, remetendo-nos para a criação do mundo e do homem como uma criação musical. No sentido poético, em que a vida é designada pela “luz dos homens”. A luz é, não só a vida, tomada como um dom divino, mas também como a própria expressão poética o diz, aquilo que habita o fazer poético, a vida íntima das palavras e as ressonâncias que
elas possuem, no jogo da métrica e dos seus ritmos, das suas pausas, dos cortes e suspensões que, tantas vezes, são mais eloquentes, naquilo que não é dito, mas antes se suspende sobre o dito. A evocação do poder demiúrgico da palavra remete, ainda, para uma dimensão oracular, uma espécie de sabedoria arcaica. No poema 3, onde Isabel Fraga evoca o “misterioso eco das palavras”, diz assim, na segunda estrofe:
De onde me chega o eco
Do que faço.
Do que sou e pareço
Sem saber
Neste universo opaco
Em que me movo
Entre o que sou
E o que quisera ser?
E aqui se desenha o espaço poético da autora: uma procura de sentido, um diálogo profundo e espiritual consigo própria, em busca si mesma, num acto de escuta das vozes do passado, dos ecos que percorrem o universo “opaco”, obscuro e que é o próprio da vida, esse “compasso de tempo” entre o que somos e o que desejaríamos ser. Por outro lado, esse diálogo ou escuta do “som do universo”, perscrutando a “música” que o percorre, é também uma compreensão da sua dimensão dialéctica, tal como a autora apresenta no poema 4: “Cada palavra/Integra o seu contrário/Cada doença/A sua plena cura”. E todo o poema se configura nessa tensão, desdobrando-se em polos antitéticos, que se reconhecem portadores de uma tensão para uma unidade universal. Tudo contém o seu contrário, aludindo essa concepção a uma sabedoria heracliteana, que se encontra na raíz, não apenas da própria filosofia, como também da poesia, retomando as palavras de Steiner, em “A Poesia do Pensamento”, na página 37, no sentido em que a sua “obscuridade” intrínseca torna-se luminosa, pelo poder da transfiguração poética. É justamente essa “obscuridade” que faz parte da sedução heracliteana sobre a literatura e a poesia. É a própria rítmica da natureza que se faz aqui linguagem, na sua diversidade, nos seus elementos e antíteses.
Não é na métrica rigorosa que a poeta busca esse ritmo nem nas formas clássicas da poesia, mas sim na fluidez cristalina da linguagem, que corre como um rio de muitas e contraditórias correntes. Há uma simplicidade nesta escrita que lhe advém de um trabalho poético laborioso, fazendo-se voz clara e serena, como a
daqueles “momentos são apenas/Aqueles em que no interior/se acende a voz/ E nos vemos ao espelho/No olhar do outro/E o outro somos nós.” (p. 28)
Trata-se, assim, de um espaço de intimidade, de uma descoberta de nós próprios, daquilo que somos, mas também do que é, em rigor, o reconhecimento do outro como nós próprios, numa aplicação – não sei se intencional ou não – do preceito levinasiano, “o de ir ao encontro do outro” ou o de reconhecer o outro, vendo nele aquilo que somos. Lembram-me estes versos, precisamente, o texto de Celan, O Meridiano, onde o poeta diz que “o poema vai a caminho do outro”, vai ao seu encontro, numa dimensão dialógica e plena de coerência. Aí, já não nos encontramos no plano meramente da linguagem poética ou do poema, apenas, mas saltamos para uma dimensão ética que é a da responsabilidade, que transcende já a poética e confina com a materialidade da vida e da existência. Noto, por exemplo, o poema 8, da página 18. Além da questão do “outro”, existe também aqui uma dimensão de hospitalidade, da dívida, como se patenteia: “Começo por controlar/O medo,/O nojo/Antes de te estender/A veste branca/A mão acesa/Antes de te convidar a entrar/De te sentar à minha mesa.” No final, o amor como o gesto ainda possível, redentor: “Em ti me revejo/E recolho/A braços com a imensa tarefa/ De amar/ E entender.” O entendimento nasce, não da razão, mas sim do amor ao outro, no momento em que nos reconhecemos no seu desamparo, alguém que é irmão na dor. Também o poema 14, da página 24, fala desta dor: “A dor dos outros/É sempre a nossa dor/Que anda em viagem.” O gesto, tal como o poema, contém uma dimensão superior à razão, porque nasce de um caminhar para o outro, para uma compreensão que é sempre mais vasta que o próprio alcance da razão.
O tempo é a matriz fundamental em que assenta toda a obra desta autora. O tempo que ressuma na “música das esperas”, o tempo de que Isabel Fraga fala “Como se/Como se as águas já fossem transparentes/Como se cada planta tivesse ouvido em si/A voz dos tempos.” (p. 55). Neste poema, a poeta fala da “voz dos tempos”, de uma natureza que traz em si, secreta, a própria lei do tempo. Muitas vezes é o passado que emerge aqui, como um animal obscuro, melancólico, mas é também uma outra dimensão do tempo, que aqui se revela, nesta “espera”, à maneira de uma promessa. Um tempo puro e que se anuncia, um tempo que é desta ordem, um suposto, mas também uma exigência de redenção: o tempo como
se “ As pedras convocassem o sol/E os animais bebessem devagar a lua/Nos regatos./Como se os homens houvessem finalmente entendido/As formigas e as abelhas/Acordando em si a memória de Vénus./Assim seria o sonho vivo./Como se aqui estivesses ao meu lado hoje/Quinze anos depois de teres partido.”. Este é o tempo que imaginamos e sonhamos, o tempo livre de todas as amarras, o tempo do silêncio vasto e do mundo inteiro, anterior ao tempo profano. Livre e inteiro, edénico. Esta “espera”, em compasso de música cósmica e sagrada, em que a voz se faz xamânica, para convocar a primordialidade da experiência, não é a do futuro, como algo objectivo e que se projecta, mas é de uma outra dimensão, aberta ao infinito e à imaterialidade, ao próprio Ser. Apenas lhe serve a linguagem liberta do freio da razão e da lógica, voltada para uma dimensão secreta do mundo, o silencioso rumor dos seres, que clama pelos nomes que virão libertá-los do tempo irreversível. E esta linguagem, ainda humana, por ser a única que temos, reclama uma outra, mais livre e ousada, que se busca a partir do humano e da sua fragilidade, a que ela alude no verso desse mesmo poema: “Assim seria o sonho vivo/Como se aqui estivesses ao meu lado hoje/Quinze anos depois de teres partido”. O “sonho vivo” ou a incandescência da memória, feita instante luminoso, redime a ausência do ser amado, evocado imageticamente: “Como se aqui estivesses ao meu lado hoje”. Matéria precária e breve, a vida humana é transfigurada em “sonho vivo” no poema, como uma exigência que transcende a própria brevidade da vida. Essa é a dimensão alquímica da poesia, que nasce da rememoração poética, que convoca o passado para o encontro com o presente. O poema seguinte, da página 56 (ler o poema), relembra essa condição bem humana, e salvífica, da rememoração: “Não matarás a luz/o instante que brota/Trocando-o por memórias/De outros dias/Nem pelo tempo que ainda não é chegado/nem pela dormência consentida.” A luz nasce, não do passado, mas sim do instante, onde o passado é convocado, mantendo-se, assim intocado, incólume, puro, na imagem poética que assim se abre para nós (e para o próprio poeta), apelando à leitura, à interpretação. Ouso, aqui, uma interpretação; se, por um lado, o passado, a infância e os enleios afectivos constituem a matéria do poema; por outro, há um desejo de actualização do mesmo, para que o mesmo (o passado) ganhe um sentido, não se petrificando nos escombros de algo passado e irreversível, morto. A luta humana
contra o esquecimento reside precisamente nisto: manter vivo o que foi outrora, fazê-lo perdurar na luz, vivo e remanescente.
É também desta forma que entendo o belíssimo poema, em que a autora diz: “Velho anjo/Curvado ao peso das asas./Atravessamos todos os dias/O mesmo jardim./Trôpego e surdo/A luz ganhou em ti/A forma de um abraço./És tu que me transportas/E guias/Pelos caminhos térreos/Do silêncio./Sabes de mim/Mais do que digo e espero./Invisível/Aninhas-te a um canto/Da minha casa.” (p. 68). O anjo – porventura a figura do passado - envelheceu, caminha de forma trôpega, ensurdeceu – talvez por já não conseguir ouvir a linguagem dos homens – mas a luz atravessa-o de ternura, por ir ao encontro dos homens e do presente e salvá-los. Porque é ele que ainda transporta o poeta, é ele que ainda o guia, com essa frágil luz: a da ternura da linguagem, habitando a forma impalpável do poema. O passado traz em si essa “frágil luz”, exige que o poeta a reconheça no semblante do velho anjo. É um segredo que ele transporta e o poeta sabe-o, deixa-se envolver nesse “abraço” e deixa-se conduzir pelo caminho silencioso que percorrem ambos. O caminho da poesia, da memória, que atravessa esse jardim imemorial, talvez o jardim da infância, onde nos demorámos um dia e a que voltamos sempre. A música que o poeta ouve é uma linguagem que se oculta nos seres e no mundo, traz com ela uma promessa, como no poema em que Isabel Fraga diz: “A minha imagem dorme/Em tua casa/E nos momentos tristes/Quando a vida te pesa/Ouves o respirar/Da minha asa.” (p. 39). Entre a imagem que dorme (e que metáfora fabulosa) e a vida que acorda, a vida para além do sono e do sonho, a vida desperta da alma, o poeta ouve o “respirar”, esse sopro cósmico, que conduz o corpo à suprema leveza, a de uma asa libertadora e silenciosa. A da poesia.
Maria João Cantinho
1
No princípio era o verso
E o verso estava com Deus
E o universo era Deus.
Nele estava a rima
A métrica e a vida.
E a vida era a luz dos homens.
A transgressão evidente no primeiro verso, substituindo a palavra “verbo” por “verso” convoca, desde logo, a dimensão poética (e demiúrgica) da palavra, mas também a da música, quando a poeta diz “Nele estava a rima/A métrica e a vida.” A associação é clara, entre o ritmo do verso e o ritmo do sopro, remetendo-nos para a criação do mundo e do homem como uma criação musical. No sentido poético, em que a vida é designada pela “luz dos homens”. A luz é, não só a vida, tomada como um dom divino, mas também como a própria expressão poética o diz, aquilo que habita o fazer poético, a vida íntima das palavras e as ressonâncias que
elas possuem, no jogo da métrica e dos seus ritmos, das suas pausas, dos cortes e suspensões que, tantas vezes, são mais eloquentes, naquilo que não é dito, mas antes se suspende sobre o dito. A evocação do poder demiúrgico da palavra remete, ainda, para uma dimensão oracular, uma espécie de sabedoria arcaica. No poema 3, onde Isabel Fraga evoca o “misterioso eco das palavras”, diz assim, na segunda estrofe:
De onde me chega o eco
Do que faço.
Do que sou e pareço
Sem saber
Neste universo opaco
Em que me movo
Entre o que sou
E o que quisera ser?
E aqui se desenha o espaço poético da autora: uma procura de sentido, um diálogo profundo e espiritual consigo própria, em busca si mesma, num acto de escuta das vozes do passado, dos ecos que percorrem o universo “opaco”, obscuro e que é o próprio da vida, esse “compasso de tempo” entre o que somos e o que desejaríamos ser. Por outro lado, esse diálogo ou escuta do “som do universo”, perscrutando a “música” que o percorre, é também uma compreensão da sua dimensão dialéctica, tal como a autora apresenta no poema 4: “Cada palavra/Integra o seu contrário/Cada doença/A sua plena cura”. E todo o poema se configura nessa tensão, desdobrando-se em polos antitéticos, que se reconhecem portadores de uma tensão para uma unidade universal. Tudo contém o seu contrário, aludindo essa concepção a uma sabedoria heracliteana, que se encontra na raíz, não apenas da própria filosofia, como também da poesia, retomando as palavras de Steiner, em “A Poesia do Pensamento”, na página 37, no sentido em que a sua “obscuridade” intrínseca torna-se luminosa, pelo poder da transfiguração poética. É justamente essa “obscuridade” que faz parte da sedução heracliteana sobre a literatura e a poesia. É a própria rítmica da natureza que se faz aqui linguagem, na sua diversidade, nos seus elementos e antíteses.
Não é na métrica rigorosa que a poeta busca esse ritmo nem nas formas clássicas da poesia, mas sim na fluidez cristalina da linguagem, que corre como um rio de muitas e contraditórias correntes. Há uma simplicidade nesta escrita que lhe advém de um trabalho poético laborioso, fazendo-se voz clara e serena, como a
daqueles “momentos são apenas/Aqueles em que no interior/se acende a voz/ E nos vemos ao espelho/No olhar do outro/E o outro somos nós.” (p. 28)
Trata-se, assim, de um espaço de intimidade, de uma descoberta de nós próprios, daquilo que somos, mas também do que é, em rigor, o reconhecimento do outro como nós próprios, numa aplicação – não sei se intencional ou não – do preceito levinasiano, “o de ir ao encontro do outro” ou o de reconhecer o outro, vendo nele aquilo que somos. Lembram-me estes versos, precisamente, o texto de Celan, O Meridiano, onde o poeta diz que “o poema vai a caminho do outro”, vai ao seu encontro, numa dimensão dialógica e plena de coerência. Aí, já não nos encontramos no plano meramente da linguagem poética ou do poema, apenas, mas saltamos para uma dimensão ética que é a da responsabilidade, que transcende já a poética e confina com a materialidade da vida e da existência. Noto, por exemplo, o poema 8, da página 18. Além da questão do “outro”, existe também aqui uma dimensão de hospitalidade, da dívida, como se patenteia: “Começo por controlar/O medo,/O nojo/Antes de te estender/A veste branca/A mão acesa/Antes de te convidar a entrar/De te sentar à minha mesa.” No final, o amor como o gesto ainda possível, redentor: “Em ti me revejo/E recolho/A braços com a imensa tarefa/ De amar/ E entender.” O entendimento nasce, não da razão, mas sim do amor ao outro, no momento em que nos reconhecemos no seu desamparo, alguém que é irmão na dor. Também o poema 14, da página 24, fala desta dor: “A dor dos outros/É sempre a nossa dor/Que anda em viagem.” O gesto, tal como o poema, contém uma dimensão superior à razão, porque nasce de um caminhar para o outro, para uma compreensão que é sempre mais vasta que o próprio alcance da razão.
O tempo é a matriz fundamental em que assenta toda a obra desta autora. O tempo que ressuma na “música das esperas”, o tempo de que Isabel Fraga fala “Como se/Como se as águas já fossem transparentes/Como se cada planta tivesse ouvido em si/A voz dos tempos.” (p. 55). Neste poema, a poeta fala da “voz dos tempos”, de uma natureza que traz em si, secreta, a própria lei do tempo. Muitas vezes é o passado que emerge aqui, como um animal obscuro, melancólico, mas é também uma outra dimensão do tempo, que aqui se revela, nesta “espera”, à maneira de uma promessa. Um tempo puro e que se anuncia, um tempo que é desta ordem, um suposto, mas também uma exigência de redenção: o tempo como
se “ As pedras convocassem o sol/E os animais bebessem devagar a lua/Nos regatos./Como se os homens houvessem finalmente entendido/As formigas e as abelhas/Acordando em si a memória de Vénus./Assim seria o sonho vivo./Como se aqui estivesses ao meu lado hoje/Quinze anos depois de teres partido.”. Este é o tempo que imaginamos e sonhamos, o tempo livre de todas as amarras, o tempo do silêncio vasto e do mundo inteiro, anterior ao tempo profano. Livre e inteiro, edénico. Esta “espera”, em compasso de música cósmica e sagrada, em que a voz se faz xamânica, para convocar a primordialidade da experiência, não é a do futuro, como algo objectivo e que se projecta, mas é de uma outra dimensão, aberta ao infinito e à imaterialidade, ao próprio Ser. Apenas lhe serve a linguagem liberta do freio da razão e da lógica, voltada para uma dimensão secreta do mundo, o silencioso rumor dos seres, que clama pelos nomes que virão libertá-los do tempo irreversível. E esta linguagem, ainda humana, por ser a única que temos, reclama uma outra, mais livre e ousada, que se busca a partir do humano e da sua fragilidade, a que ela alude no verso desse mesmo poema: “Assim seria o sonho vivo/Como se aqui estivesses ao meu lado hoje/Quinze anos depois de teres partido”. O “sonho vivo” ou a incandescência da memória, feita instante luminoso, redime a ausência do ser amado, evocado imageticamente: “Como se aqui estivesses ao meu lado hoje”. Matéria precária e breve, a vida humana é transfigurada em “sonho vivo” no poema, como uma exigência que transcende a própria brevidade da vida. Essa é a dimensão alquímica da poesia, que nasce da rememoração poética, que convoca o passado para o encontro com o presente. O poema seguinte, da página 56 (ler o poema), relembra essa condição bem humana, e salvífica, da rememoração: “Não matarás a luz/o instante que brota/Trocando-o por memórias/De outros dias/Nem pelo tempo que ainda não é chegado/nem pela dormência consentida.” A luz nasce, não do passado, mas sim do instante, onde o passado é convocado, mantendo-se, assim intocado, incólume, puro, na imagem poética que assim se abre para nós (e para o próprio poeta), apelando à leitura, à interpretação. Ouso, aqui, uma interpretação; se, por um lado, o passado, a infância e os enleios afectivos constituem a matéria do poema; por outro, há um desejo de actualização do mesmo, para que o mesmo (o passado) ganhe um sentido, não se petrificando nos escombros de algo passado e irreversível, morto. A luta humana
contra o esquecimento reside precisamente nisto: manter vivo o que foi outrora, fazê-lo perdurar na luz, vivo e remanescente.
É também desta forma que entendo o belíssimo poema, em que a autora diz: “Velho anjo/Curvado ao peso das asas./Atravessamos todos os dias/O mesmo jardim./Trôpego e surdo/A luz ganhou em ti/A forma de um abraço./És tu que me transportas/E guias/Pelos caminhos térreos/Do silêncio./Sabes de mim/Mais do que digo e espero./Invisível/Aninhas-te a um canto/Da minha casa.” (p. 68). O anjo – porventura a figura do passado - envelheceu, caminha de forma trôpega, ensurdeceu – talvez por já não conseguir ouvir a linguagem dos homens – mas a luz atravessa-o de ternura, por ir ao encontro dos homens e do presente e salvá-los. Porque é ele que ainda transporta o poeta, é ele que ainda o guia, com essa frágil luz: a da ternura da linguagem, habitando a forma impalpável do poema. O passado traz em si essa “frágil luz”, exige que o poeta a reconheça no semblante do velho anjo. É um segredo que ele transporta e o poeta sabe-o, deixa-se envolver nesse “abraço” e deixa-se conduzir pelo caminho silencioso que percorrem ambos. O caminho da poesia, da memória, que atravessa esse jardim imemorial, talvez o jardim da infância, onde nos demorámos um dia e a que voltamos sempre. A música que o poeta ouve é uma linguagem que se oculta nos seres e no mundo, traz com ela uma promessa, como no poema em que Isabel Fraga diz: “A minha imagem dorme/Em tua casa/E nos momentos tristes/Quando a vida te pesa/Ouves o respirar/Da minha asa.” (p. 39). Entre a imagem que dorme (e que metáfora fabulosa) e a vida que acorda, a vida para além do sono e do sonho, a vida desperta da alma, o poeta ouve o “respirar”, esse sopro cósmico, que conduz o corpo à suprema leveza, a de uma asa libertadora e silenciosa. A da poesia.
Maria João Cantinho
martes, 4 de junio de 2013
A cegueira da escrita. Sobre a cena da escrita em Carlos de Oliveira
A cegueira da escrita. Sobre a cena da escrita em Carlos de Oliveira
Posted by Osvaldo Manuel Silvestre

Nenhum heroísmo, nenhuma retórica, um mínimo de corpo: eis uma descrição possível da cena da escrita em Carlos de Oliveira. A cena, esclareça-se, é nocturna, oficinal e despojada de qualquer tipo de transcendência, nem que apenas a fornecida por essa forma moderna, ou burguesa, de transcendência a que damos o nome de Literatura. O autor escreve à «luz eléctrica», que aqui não é um dos nomes (ou o nome) do ansioso Eros moderno, fabril e febril, de Álvaro de Campos, mas tão-só o foco e o casulo de uma prática simultaneamente criativa e mecânica, corporal e espectral, intensa e mortificante. Leia-se, de uma das escassas descrições dessa cena:
O trabalho oficinal é o fulcro sobre que tudo gira. Mesa, papel, caneta, luz eléctrica. E horas sobre horas de paciência, consciência profissional. Para mim esse trabalho consiste quase sempre em alcançar um texto muito despojado e deduzido de si mesmo, o que me obriga por vezes a transformá-lo numa meditação sobre o seu próprio desenvolvimento e destino. (Carlos de Oliveira, O Aprendiz de Feiticeiro, Lisboa, Sá da Costa, 19793, pp. 205-206.)Notemos o perfil moderno deste autor «sem biografia», como quase todos os grandes modernos, a começar pelo escriturário Pessoa: «trabalho oficinal», «consciência profissional», «horas de paciência», despojamento e, finalmente, auto-consciência da obra de arte. Esta descrição surge potenciada em verso no extraordinário «Soneto Fiel», de Sobre o lado esquerdo (1968), de que transcrevo os últimos sete versos: «A solidão coalhada sobre a mesa. // As sílabas de cedro, de papel, / A espuma vegetal, o selo de água, / Caindo-me nas mãos desde o início. // O abat-jour, o seu luar fiel, / Insinuando sem amor nem mágoa / A noite que cercou o meu ofício». Resumindo abruptamente, dir-se-ia que estes versos, como as breves e escassas descrições da cena da escrita em Carlos de Oliveira, nos sugerem o escritor como um «escriturário da literatura», essa versão tardo-oitocentista rastreável já no Flaubert de Bouvard et Pécuchet, segundo a qual a dicotomia feliz entre o burocrata e o criador está condenada a fracassar sob a luz crua (a luz eléctrica…) das realidades do «ofício». Por outras palavras, o poeta é um oficiante — notem-se as conotações sacras, e genesíacas, do verso «Caindo-me nas mãos desde o início» — ungido pela epifania… da burocracia, cujo outro nome, ou pseudónimo, seria «literatura». Esta consistiria provavelmente numa vasta corporação de funcionários solitários, assinalados, na escuridão da «fábrica», pelo seu abat-jour fiel. O nome desta fábrica, como já foi sugerido, pode ser literatura ou, mais radicalmente, linguagem.
Em todo o caso, nem uma nem outra se mostram disponíveis para fornecer o aconchego humanista tradicionalmente associado à criação — musas, vozes de pais distantes, elos, cadeias —, oferecendo antes a desolação de uma paisagem «sem amor nem mágoa». O mundo da linguagem, da literatura, da criação, não se condói dos seus oficiantes: a «arte» (chamemos-lhe assim) não é um vir caritativo do mundo até ao sujeito que o convoca, mas antes a percepção de que os seus produtos (da arte) são formas (auto)deceptivas, e não raro desesperadas, de contrabando de caridade a um mundo sem amor nem mágoa; ou, se se quiser, sem necessidade de nós. Podemos chamar a isto o anti-humanismo de Carlos de Oliveira, o qual pressupõe sempre, como se vê na encenação nocturna da «solidão coalhada sobre a mesa», uma perspectiva cosmológica que reduz o homem, ainda quando criador, ao infinitamente pequeno (mas, por aí, a uma refiguração sublime), e uma perspectiva do cosmos como inumano — e como o inumano. Nesse sentido, o escritor é escriturário ou burocrata não tanto porque como eles seja uma criatura massacrada pelo ofício (isso seria ainda o cansado legado humanista), mas sim porque é tão habitado e parasitado como eles pela inumanidade de uma prática de registo do mundo que não consegue ir além de uma sua declinação por itens, ou alíneas: ou seja, uma ordem sem qualquer garantia de sentido. A única transcendência, digamos, é a da ordem mesma ou da axiomática, vale dizer, das linguagens. Confiando-se a elas, o escritor, como o escriturário, confia — nelas, justamente. Sem contudo confiar que elas sejam mais do que isso: formas de registo mais ou menos confiado do mundo.
E contudo, tal registo não desce, como uma evidência auto-imposta, sobre o escritor-escriturário; ele deve ser conquistado, por entre o emaranhado cego do mundo e da escrita que o regista também cegamente. Um exemplo:
Também semeio florestas, mais enredadas que as do padre Bernardes, autor elegante e claro, dizem (eu não gosto). Escrevo e cada página é a maranha anoitecida. Emendas, riscos, setas para as margens do papel; os acrescentos metem-se uns pelos outros como as frondes enoveladas. Mal se vê dentro destas frases. Só com a lâmpada da paciência. Felizmente não falta paciência a Gelnaa, que se tornou o meu criptógrafo. Decifra a escrita semi-secreta e copia-a à máquina. Torno a corrigir, a emaranhar. Nova cópia, novas correcções. Etc. Não sou nenhum Flaubert (paradigma habitual do escritor que tritura as palavras até à náusea) mas custa-me deixar o trabalho a meio. Faço o que posso por ele. Quase nada. (Op. cit., pp. 138-139)Passos como este, pela sua extrema congruência com o processo revisionista que a partir de certa altura realimenta a obra de Carlos de Oliveira, ou ainda com títulos como Trabalho Poético, deram e dão azo a um discurso de exaltação de uma concepção materialista do literário. O ponto cego de tal discurso, contudo, é a forma como esse materialismo é curto-circuitado por um não-produtivismo que faz deste trabalho uma obstinada metáfora da escassez: o autor escreve pouco e mal, necessitando de ajudas externas (mas seria caso para perguntar se «Gelnaa» é uma entidade externa à obra que aliás ajuda a nascer, ou se é ainda uma criatura da obra) para que a escrita seja decifrável. «Maranha» e «fronde» são aqui signos maiores de uma arte caligráfica esotérica, necessitada da criptografia da tão cara secretária (ou raro oráculo?) para quem se criou o nome Gelnaa, também ele uma maranha produzida a partir de um outro nome. Isto é: uma reescrita.
O processo de obscurecimento — «Mal se vê dentro destas frases» — é sem fim e parece possuído de uma estranha finalidade replicante: «Torno a corrigir, a emaranhar. Nova cópia, novas correcções. Etc.». Raro e radical materialismo, este, que espacializa o texto escrito a ponto de o tornar caligrafia contemplável: «Escrevo e cada página é a maranha anoitecida. Emendas, riscos, setas para as margens do papel; os acrescentos metem-se uns pelos outros como as frondes enoveladas. Mal se vê dentro destas frases.» Mal se ver é a forma necessária de um apelo denegado ao ver, em sub-rogação do ler. Ou melhor, é a forma visível de um devir matérico da escrita que lhe atribui a densidade, a profundidade, enfim, a tridimensionalidade de uma maranha na qual se mergulha como quem desce e sobe pelo feijoeiro mágico da caligrafia. Magia perigosa, contudo, e sempre no limiar do indecifrável que perversamente abraça ao estabelecer uma reversibilidade (quase) perfeita entre corrigir e emaranhar — «Torno a corrigir, a emaranhar.» —, reversibilidade permanentemente alimentada pelo devir replicante de uma escrita cujo melhor signo é o «Etc.» que nos promete mais do mesmo: mais da pobreza escura da mesma matéria escritural.
Ou seja: este é um materialismo bloqueado pela rugosidade indomesticável da matéria, rugosidade essa que a escrita emaranhada do texto traduz num hermetismo só penetrável pela longa «lâmpada da paciência». O «abat-jour fiel» não parece pois prometer luz ou iluminações, ainda que apenas profanas; mas tão-só a paciência infindável de um movimento regressivo de reescrita de um texto e de uma cena primitivos, que contudo só existem enquanto tais porque, e na medida em que, a reescrita os possa decifrar ou criptografar, num devir desprovido de garantias e ademais a todo o instante sabotado pela sobreposição de correcção e emaranhamento. Como se sem aplicada decifração (sem leitura) não pudesse haver verdadeira escrita: a que daria enfim a ver aquilo que só pela força da reescrita se torna longinquamente visível e a que talvez pudéssemos chamar «a cegueira da escrita», tropo não-parafraseável da «cegueira da matéria». Por outras palavras, talvez mais apropriadas, tudo se passa como se o autor nos dissesse: «No meu princípio está o meu fim, no meu fim está o meu princípio». Etc., etc., etc.
Eis o que pode ser uma (re)escrita materialista da génese: uma história sem fim, porque em rigor sem um começo iluminável.
[Texto publicado em 2004, em volume dedicado a escritores da zona centro, no âmbito das actividades da Coimbra Capital da Cultura]
lunes, 3 de junio de 2013
Rolo de Cenoura
Rolo
de Cenoura
Ingredientes
600g de cenoura
1 pau de canela
300g de açúcar
4 ovos
4 colheres (sopa) de farinha
1 colher (chá) de fermento em pó
sumo e raspa de 1/2 laranja
canela em pó para polvilhar
Preparação:
Coza as cenouras com o pau de canela e reduza-as a puré (retire o pau de canela antes).
Junte o açúcar, a raspa e o sumo da laranja, os ovos inteiros e bata
bem. Envolva a farinha com o fermento e junte ao preparado. Misture bem.
Deite o preparado num tabuleiro forrado com papel vegetal e untado com
margarina. Coza em forno pré-aquecido a 170º, durante cerca de 20
minutos.
Desenforme a torta ainda quente sobre um pano polvilhado com bastante açúcar.
Retire o papel vegetal, polvilhe com a canela em pó e enrole delicadamente com a ajuda do pano
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