A obra de Isabel Fraga começou, justamente, pela poesia, com a sua obra Face (1984) e Pátio Interior (2002), regressando agora com o seu terceiro livro, que aqui se apresenta, A Música das Esperas. O título, algo misterioso, joga com a mítica “música das esferas”, de que falaram os gregos, em especial os pitagóricos e os platónicos, que atribuíam à música uma origem divina e mágica, sendo responsável pela harmonia do universo e pela sua beleza. Os mitos de Apolo e de Mársias que dominaram a cultura grega da harmonia e da música revelam bem que a música tinha uma importância fundamental na vida humana, que hoje se perdeu. Para os Antigos, a música concentrava em si um poder mágico, era uma força anímica e verdadeiramente incorporada na cultura arcaica. Por isso, ela constituía o elemento fundamental do ritual mágico na Antiguidade, sendo associada ao poder sagrado e divino dos deuses ou ainda aos elementos cósmicos. Na Índia, segundo a tradição, o próprio Brahma teria ensinado a música ao profeta Narada e este, por sua vez, tê-la-ia transmitido aos homens. E no Egipto o deus Thot teria criado o mundo através de sons. Também o poeta é um demiurgo que trabalha os poderes mágicos e musicais da própria língua, redescobrindo nela um sentido oculto, já que lida de perto com os seus efeitos poderosos. Veja-se, por exemplo, o primeiro poema do livro, que nos reenvia inequivocamente para essa dimensão “cantável” da linguagem:

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No princípio era o verso

E o verso estava com Deus

E o universo era Deus.

Nele estava a rima

A métrica e a vida.

E a vida era a luz dos homens.


A transgressão evidente no primeiro verso, substituindo a palavra “verbo” por “verso” convoca, desde logo, a dimensão poética (e demiúrgica) da palavra, mas também a da música, quando a poeta diz “Nele estava a rima/A métrica e a vida.” A associação é clara, entre o ritmo do verso e o ritmo do sopro, remetendo-nos para a criação do mundo e do homem como uma criação musical. No sentido poético, em que a vida é designada pela “luz dos homens”. A luz é, não só a vida, tomada como um dom divino, mas também como a própria expressão poética o diz, aquilo que habita o fazer poético, a vida íntima das palavras e as ressonâncias que

elas possuem, no jogo da métrica e dos seus ritmos, das suas pausas, dos cortes e suspensões que, tantas vezes, são mais eloquentes, naquilo que não é dito, mas antes se suspende sobre o dito. A evocação do poder demiúrgico da palavra remete, ainda, para uma dimensão oracular, uma espécie de sabedoria arcaica. No poema 3, onde Isabel Fraga evoca o “misterioso eco das palavras”, diz assim, na segunda estrofe:

De onde me chega o eco

Do que faço.

Do que sou e pareço

Sem saber

Neste universo opaco

Em que me movo

Entre o que sou

E o que quisera ser?


E aqui se desenha o espaço poético da autora: uma procura de sentido, um diálogo profundo e espiritual consigo própria, em busca si mesma, num acto de escuta das vozes do passado, dos ecos que percorrem o universo “opaco”, obscuro e que é o próprio da vida, esse “compasso de tempo” entre o que somos e o que desejaríamos ser. Por outro lado, esse diálogo ou escuta do “som do universo”, perscrutando a “música” que o percorre, é também uma compreensão da sua dimensão dialéctica, tal como a autora apresenta no poema 4: “Cada palavra/Integra o seu contrário/Cada doença/A sua plena cura”. E todo o poema se configura nessa tensão, desdobrando-se em polos antitéticos, que se reconhecem portadores de uma tensão para uma unidade universal. Tudo contém o seu contrário, aludindo essa concepção a uma sabedoria heracliteana, que se encontra na raíz, não apenas da própria filosofia, como também da poesia, retomando as palavras de Steiner, em “A Poesia do Pensamento”, na página 37, no sentido em que a sua “obscuridade” intrínseca torna-se luminosa, pelo poder da transfiguração poética. É justamente essa “obscuridade” que faz parte da sedução heracliteana sobre a literatura e a poesia. É a própria rítmica da natureza que se faz aqui linguagem, na sua diversidade, nos seus elementos e antíteses.

Não é na métrica rigorosa que a poeta busca esse ritmo nem nas formas clássicas da poesia, mas sim na fluidez cristalina da linguagem, que corre como um rio de muitas e contraditórias correntes. Há uma simplicidade nesta escrita que lhe advém de um trabalho poético laborioso, fazendo-se voz clara e serena, como a

daqueles “momentos são apenas/Aqueles em que no interior/se acende a voz/ E nos vemos ao espelho/No olhar do outro/E o outro somos nós.” (p. 28)

Trata-se, assim, de um espaço de intimidade, de uma descoberta de nós próprios, daquilo que somos, mas também do que é, em rigor, o reconhecimento do outro como nós próprios, numa aplicação – não sei se intencional ou não – do preceito levinasiano, “o de ir ao encontro do outro” ou o de reconhecer o outro, vendo nele aquilo que somos. Lembram-me estes versos, precisamente, o texto de Celan, O Meridiano, onde o poeta diz que “o poema vai a caminho do outro”, vai ao seu encontro, numa dimensão dialógica e plena de coerência. Aí, já não nos encontramos no plano meramente da linguagem poética ou do poema, apenas, mas saltamos para uma dimensão ética que é a da responsabilidade, que transcende já a poética e confina com a materialidade da vida e da existência. Noto, por exemplo, o poema 8, da página 18. Além da questão do “outro”, existe também aqui uma dimensão de hospitalidade, da dívida, como se patenteia: “Começo por controlar/O medo,/O nojo/Antes de te estender/A veste branca/A mão acesa/Antes de te convidar a entrar/De te sentar à minha mesa.” No final, o amor como o gesto ainda possível, redentor: “Em ti me revejo/E recolho/A braços com a imensa tarefa/ De amar/ E entender.” O entendimento nasce, não da razão, mas sim do amor ao outro, no momento em que nos reconhecemos no seu desamparo, alguém que é irmão na dor. Também o poema 14, da página 24, fala desta dor: “A dor dos outros/É sempre a nossa dor/Que anda em viagem.” O gesto, tal como o poema, contém uma dimensão superior à razão, porque nasce de um caminhar para o outro, para uma compreensão que é sempre mais vasta que o próprio alcance da razão.

O tempo é a matriz fundamental em que assenta toda a obra desta autora. O tempo que ressuma na “música das esperas”, o tempo de que Isabel Fraga fala “Como se/Como se as águas já fossem transparentes/Como se cada planta tivesse ouvido em si/A voz dos tempos.” (p. 55). Neste poema, a poeta fala da “voz dos tempos”, de uma natureza que traz em si, secreta, a própria lei do tempo. Muitas vezes é o passado que emerge aqui, como um animal obscuro, melancólico, mas é também uma outra dimensão do tempo, que aqui se revela, nesta “espera”, à maneira de uma promessa. Um tempo puro e que se anuncia, um tempo que é desta ordem, um suposto, mas também uma exigência de redenção: o tempo como

se “ As pedras convocassem o sol/E os animais bebessem devagar a lua/Nos regatos./Como se os homens houvessem finalmente entendido/As formigas e as abelhas/Acordando em si a memória de Vénus./Assim seria o sonho vivo./Como se aqui estivesses ao meu lado hoje/Quinze anos depois de teres partido.”. Este é o tempo que imaginamos e sonhamos, o tempo livre de todas as amarras, o tempo do silêncio vasto e do mundo inteiro, anterior ao tempo profano. Livre e inteiro, edénico. Esta “espera”, em compasso de música cósmica e sagrada, em que a voz se faz xamânica, para convocar a primordialidade da experiência, não é a do futuro, como algo objectivo e que se projecta, mas é de uma outra dimensão, aberta ao infinito e à imaterialidade, ao próprio Ser. Apenas lhe serve a linguagem liberta do freio da razão e da lógica, voltada para uma dimensão secreta do mundo, o silencioso rumor dos seres, que clama pelos nomes que virão libertá-los do tempo irreversível. E esta linguagem, ainda humana, por ser a única que temos, reclama uma outra, mais livre e ousada, que se busca a partir do humano e da sua fragilidade, a que ela alude no verso desse mesmo poema: “Assim seria o sonho vivo/Como se aqui estivesses ao meu lado hoje/Quinze anos depois de teres partido”. O “sonho vivo” ou a incandescência da memória, feita instante luminoso, redime a ausência do ser amado, evocado imageticamente: “Como se aqui estivesses ao meu lado hoje”. Matéria precária e breve, a vida humana é transfigurada em “sonho vivo” no poema, como uma exigência que transcende a própria brevidade da vida. Essa é a dimensão alquímica da poesia, que nasce da rememoração poética, que convoca o passado para o encontro com o presente. O poema seguinte, da página 56 (ler o poema), relembra essa condição bem humana, e salvífica, da rememoração: “Não matarás a luz/o instante que brota/Trocando-o por memórias/De outros dias/Nem pelo tempo que ainda não é chegado/nem pela dormência consentida.” A luz nasce, não do passado, mas sim do instante, onde o passado é convocado, mantendo-se, assim intocado, incólume, puro, na imagem poética que assim se abre para nós (e para o próprio poeta), apelando à leitura, à interpretação. Ouso, aqui, uma interpretação; se, por um lado, o passado, a infância e os enleios afectivos constituem a matéria do poema; por outro, há um desejo de actualização do mesmo, para que o mesmo (o passado) ganhe um sentido, não se petrificando nos escombros de algo passado e irreversível, morto. A luta humana

contra o esquecimento reside precisamente nisto: manter vivo o que foi outrora, fazê-lo perdurar na luz, vivo e remanescente.

É também desta forma que entendo o belíssimo poema, em que a autora diz: “Velho anjo/Curvado ao peso das asas./Atravessamos todos os dias/O mesmo jardim./Trôpego e surdo/A luz ganhou em ti/A forma de um abraço./És tu que me transportas/E guias/Pelos caminhos térreos/Do silêncio./Sabes de mim/Mais do que digo e espero./Invisível/Aninhas-te a um canto/Da minha casa.” (p. 68). O anjo – porventura a figura do passado - envelheceu, caminha de forma trôpega, ensurdeceu – talvez por já não conseguir ouvir a linguagem dos homens – mas a luz atravessa-o de ternura, por ir ao encontro dos homens e do presente e salvá-los. Porque é ele que ainda transporta o poeta, é ele que ainda o guia, com essa frágil luz: a da ternura da linguagem, habitando a forma impalpável do poema. O passado traz em si essa “frágil luz”, exige que o poeta a reconheça no semblante do velho anjo. É um segredo que ele transporta e o poeta sabe-o, deixa-se envolver nesse “abraço” e deixa-se conduzir pelo caminho silencioso que percorrem ambos. O caminho da poesia, da memória, que atravessa esse jardim imemorial, talvez o jardim da infância, onde nos demorámos um dia e a que voltamos sempre. A música que o poeta ouve é uma linguagem que se oculta nos seres e no mundo, traz com ela uma promessa, como no poema em que Isabel Fraga diz: “A minha imagem dorme/Em tua casa/E nos momentos tristes/Quando a vida te pesa/Ouves o respirar/Da minha asa.” (p. 39). Entre a imagem que dorme (e que metáfora fabulosa) e a vida que acorda, a vida para além do sono e do sonho, a vida desperta da alma, o poeta ouve o “respirar”, esse sopro cósmico, que conduz o corpo à suprema leveza, a de uma asa libertadora e silenciosa. A da poesia.


Maria João Cantinho