viernes, 14 de junio de 2013
Poeta fingidor, Mentira poetica Nietzsche e Jorge de Sena
OS MAUS
O poeta capaz de mentir
conscientemente, voluntariamente,
só ele é capaz de dizer a Verdade.
Isto é, segundo Nietzsche – e esta atitude contraditória é largamente patente na sua obra o poeta, para dizer a Verdade, precisa de, em consciência e vontade, ser capaz de mentir. Claro que esta capacidade de mentir não significará o «criar ficções» – terminologia que durante tantos séculos dominou a poética ocidental -, nem significa o pura e simplesmente fingir, qual os detractores de Fernando Pessoa leram no primeiro verso (e não nos outros) da «Autopsicografia» que de «ele-mesmo-ele mesmo» o poeta da Ode Marítima escreveu. A «mentira» consciente e voluntária do poeta, qual nietzscheanamente é proposto, no fragmento citado, refere-se especificamente à ordem do conhecimento, ou mais exactamente, à ordem da expressão autêntica de um conhecimento do Mundo. Só o poeta que se domine conscientemente e voluntariamente, durante a gestação do poema cujo significado desconhece ainda (e cuja complexidade significativa lhe escapará em parte), só ele será capaz de atingir, tão mais de perto quanto possível, uma verdade não perturbada pelas circunstâncias factuais da criação, as quais se cifram em imagens recorrentes, em tópicos analogicamente sugeridos, em ritmos de respiração momentânea, nos inúmeros escolhos que o ambiente, a idiossincrasia, a cultura, a educação, as tendências ideológicas, o momento político, etc„ propõem a uma gestação difícil, para que ela naufrague na comodidade, no hábito e até no virtual aplauso do público e da crítica. Mas não apenas isto, sem dúvida. Implica, principalmente, um critério de o que seja em poesia a verdade, isto é, uma coisa diferente daquela que o poeta diria, se não soubesse mentir. Em poesia,e para além dela, já que o Dichter de Nietzsche possui notoriamente conotações – aliás bastante correntes na cultura germânica – de sibila e de profeta. Esta mentira, que urgiria saber dominar, saber ultrapassar, não é, pois, apenas o engano da própria sensibilidade, o qual seria vencível pela lucidez, mas também o engano da própria vivência existencial na medida em que ignora a estrutura fenomenal da verdade. «O conceito de verdade é um contra-senso. O domínio do verdadeiro-falso refere-se às relações entre essências, não ao em-si (…). Não existe essência-em-si» [4]. Donde decorrerá que a verdade em poesia, aquela verdade não perturbada pelos factores ocasionais, e aquela verdade que é visão, resultarão da elisão da antinomia «verdadeiro-falso», elisão essa que irá processar-se através de um ultrapassamento do em-si do poeta, ao qual tradicionalmente se identificava a essência da poesia que o poeta materializava, existenciava objectivamente. Isto mesmo, à sua maneira, realizou Fernando Pessoa.
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O poeta capaz de mentir
conscientemente, voluntariamente,
só ele é capaz de dizer a Verdade.
Isto é, segundo Nietzsche – e esta atitude contraditória é largamente patente na sua obra o poeta, para dizer a Verdade, precisa de, em consciência e vontade, ser capaz de mentir. Claro que esta capacidade de mentir não significará o «criar ficções» – terminologia que durante tantos séculos dominou a poética ocidental -, nem significa o pura e simplesmente fingir, qual os detractores de Fernando Pessoa leram no primeiro verso (e não nos outros) da «Autopsicografia» que de «ele-mesmo-ele mesmo» o poeta da Ode Marítima escreveu. A «mentira» consciente e voluntária do poeta, qual nietzscheanamente é proposto, no fragmento citado, refere-se especificamente à ordem do conhecimento, ou mais exactamente, à ordem da expressão autêntica de um conhecimento do Mundo. Só o poeta que se domine conscientemente e voluntariamente, durante a gestação do poema cujo significado desconhece ainda (e cuja complexidade significativa lhe escapará em parte), só ele será capaz de atingir, tão mais de perto quanto possível, uma verdade não perturbada pelas circunstâncias factuais da criação, as quais se cifram em imagens recorrentes, em tópicos analogicamente sugeridos, em ritmos de respiração momentânea, nos inúmeros escolhos que o ambiente, a idiossincrasia, a cultura, a educação, as tendências ideológicas, o momento político, etc„ propõem a uma gestação difícil, para que ela naufrague na comodidade, no hábito e até no virtual aplauso do público e da crítica. Mas não apenas isto, sem dúvida. Implica, principalmente, um critério de o que seja em poesia a verdade, isto é, uma coisa diferente daquela que o poeta diria, se não soubesse mentir. Em poesia,e para além dela, já que o Dichter de Nietzsche possui notoriamente conotações – aliás bastante correntes na cultura germânica – de sibila e de profeta. Esta mentira, que urgiria saber dominar, saber ultrapassar, não é, pois, apenas o engano da própria sensibilidade, o qual seria vencível pela lucidez, mas também o engano da própria vivência existencial na medida em que ignora a estrutura fenomenal da verdade. «O conceito de verdade é um contra-senso. O domínio do verdadeiro-falso refere-se às relações entre essências, não ao em-si (…). Não existe essência-em-si» [4]. Donde decorrerá que a verdade em poesia, aquela verdade não perturbada pelos factores ocasionais, e aquela verdade que é visão, resultarão da elisão da antinomia «verdadeiro-falso», elisão essa que irá processar-se através de um ultrapassamento do em-si do poeta, ao qual tradicionalmente se identificava a essência da poesia que o poeta materializava, existenciava objectivamente. Isto mesmo, à sua maneira, realizou Fernando Pessoa.
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miércoles, 12 de junio de 2013
Retrato na ficçao (Carlos Reis)
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O retrato como figuraçãoby Carlos Reis |
O
conceito de retrato, ponderado em função da sua utilização literária,
desdobra-se em, pelo menos, duas aceções, eventualmente articuladas.
Uma: o retrato como dispositivo de figuração da personagem. Outra: o
retrato como objeto decorativo.
Nesta
segunda aceção, o retrato surge muitas vezes em contexto ficcional,
quer em regime narrativo, quer em regime dramático, como objeto
figurativo que dialoga (em interpelação, diferenciação, mimetização ou
evocação) com as personagens. Induzindo atmosferas, emoções ou volições
que remetem para os estados de espírito ou para os comportamentos
das personagens, os retratos que as ficções elaboram são, então,
elementos ativos no universo ficcional que eles condicionam.
Um exemplo canónico: na abertura do segundo ato do Frei Luís de Sousa, a
descrição do local da ação (“É no palácio que fora de D. João de
Portugal, em Almada”) evidencia a deslocação para um outro espaço,
depois do incêndio da casa (e do retrato, para que conste) de Manuel de
Sousa Coutinho; são três retratos “em lugar mais conspícuo” que, naquele
novo espaço, contribuem para acentuar a atmosfera dramática que
desembocará na destruição da família. O retrato “de el-Rei D. Sebastião,
o de Camões e o de D. João de Portugal” sugerem, então, um regresso que
o final desse ato trata de representar. Aí, apontando para o terceiro
dos retratos, o Romeiro parece transitar do estatuto de tipo (“um destes
romeiros que aqui estão sempre a passar”, dissera o criado Miranda),
para o de personagem com identidade definida; e contudo, o “Ninguém”
com que o Romeiro se autodenomina instala um vazio, que é o de alguém
sem outro lugar no mundo que não seja o daquele retrato, fixação
estática de uma imagem passada, que não acompanhou o destino da
personagem figurada.
Próximo deste na história literária garrettiana, está o retrato de Carlos, nas Viagens na minha terra (cap. XX), agora entendido como dispositivo de figuração literária. Neste
caso, o retrato processa-se em registo de distanciamento irónico: o
narrador sabe que, naquele contexto comunicativo, importa cumprir uma
certa retórica do retrato em tempo romântico: “Mas certo
que as amáveis leitoras querem saber com quem tratam, e exigem, pelo
menos, uma esquiça rápida e a largos traços do novo ator que lhes vou
apresentar em cena.” Segue-se a obrigatória tópica do retrato: o rosto, a
estatura, “o peito largo e forte como precisa um coração de homem para
pulsar livre”. Logo depois e inevitavelmente, uma interrupção, com
pedido de desculpas às “amáveis leitoras”; porque “quando pinto, quando
vou riscando e colorindo as minhas figuras, sou como aqueles pintores
da Idade Média que entrelaçavam nos seus painéis dísticos de sentenças,
fitas lavradas de moralidades e conceitos”. Assim, também este narrador
faz questão em notar que
o
retrato deste “novo ator” traz consigo significados que transcendem a
figura retratada. E volta-se ao retrato: o rosto, a barba preta, o
cabelo, “a testa alta e desafogada”; tudo isto e, evidentemente, os
olhos, fulcro de uma figuração incompleta se neles não lêssemos
antinomias que o desenvolvimento da ação confirmará. “Porque”, termina o
retrato, “a mobilidade e a gravidade eram os dois polos desse caráter
pouco vulgar e dificilmente bem entendido.”
Completado o retrato, a personagem está pronta para uma vida própria, que não é só a das suas ações no relato que protagoniza: é também a sobrevida das ilustrações (outros retratos) e do casting. Contra
essa refigurações, diria Flaubert indignado: “Ô illustration !
Invention moderne faite pour déshonorer toute Littérature !...”
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