
Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil - Maria de Medeiros realiza hoje o show de encerramento da 32ª Mostra, no Sesc Pinheiros. O show deve ocorrer após a cerimônia de entrega do troféu Bandeira Paulista, quando serão anunciados os vencedores nas categorias de ficção e documentário. A portuguesa Maria já venceu o prêmio da Mostra - a competição destina-se a diretores estreantes, até o segundo filme - com seu longa Capitães de Abril, que reconstitui o movimento de militares que levou ao fim da ditadura que dominava Portugal, nos anos 70. Os compositores que Maria canta hoje são aqueles que ela aprendeu a amar, porque também faziam música contra outra ditadura, a que governava o Brasil.
Maria ainda era adolescente quando aprendeu a buscar nas entrelinhas o significado profundo daquelas músicas. Seu primeiro CD, A Little More Blue, volta-se para canções nascidas num ambiente de repressão política e desejo de transformação. "Gosto de todos eles, mas Chico é muito especial. Acho que não existe no mundo outro compositor como ele, que fale com tanta propriedade, e na primeira pessoa, sobre os sentimentos das mulheres", ela diz. Há mais de ano que Maria percorre a Europa e a África com seu espetáculo que mapeia a música desses compositores. Tudo começou em Paris, com o show de lançamento do CD, no Teatro Bastilha. Maria cantou em português e recitou em francês, apresentando a obra desses artistas pelos quais tem imenso carinho e respeito. É importante contextualizar, ela explica, para que a platéia tenha um conhecimento mais profundo desses autores. Por mais que tente parecer isenta - "Como se pode escolher entre aqueles a quem se ama?" -, Chico lhe parece o mais intenso e visceral. Embora ele não goste de ser chamado de poeta, observa o repórter, Chico é, sim, um grande poeta. "Com certeza", concorda Maria de Medeiros.
Depois de Paris, o show excursionou por Portugal, pela Itália, pela Espanha e também por Moçambique e Angola, sempre com o mesmo formato bilíngüe - ela canta em português e recita na língua local, seja o italiano ou o espanhol, além do francês. O show que ela apresenta em São Paulo não é exatamente este que a tem mantido na estrada. "Fiz um espetáculo especial em homenagem à Mostra. Além da homenagem à música brasileira, canto também autores portugueses e Nino Rota." A duração aproximada do espetáculo é de 75 minutos e, do felliniano Rota - se poderia também dizer ?viscontiano?, pois Nino colaborou com os dois grandes diretores, Federico Fellini e Luchino Visconti -, ela apresenta as canções de O Poderoso Chefão (Il Padrino), A Doce Vida e Che Guocchi Ti Fa L?Amore, com versos de Lina Wertmüller. "A música de Nino Rota é puro encantamento para os sentidos", ela define.
Maria está em São Paulo desde o começo da Mostra, mas os integrantes de sua banda - um trio que inclui o percussionista brasileiro Edmundo Carneiro - chegaram à cidade na segunda-feira. Ontem, ensaiaram no Sesc Pinheiros e hoje ela ainda faz mais uma passagem de som. O que ela tem feito na cidade? "Tenho visto muitos filmes. Adoro esta Mostra, que proporciona uma oferta extraordinária. Acho que ela é integralmente dedicada aos cinéfilos, e eu sou uma." O que Maria viu na Mostra? "Vi mais filmes nos primeiros dias, agora estou voltada para o show", ela explicou na entrevista realizada na segunda-feira. Qual o filme, ou quais os filmes de que mais gostou? "Gostei muito do Ninho Vazio (filme argentino de Daniel Burman) e de Última Parada 174." O repórter provoca - o filme brasileiro, de Bruno Barreto, não teve críticas muito boas. Para alguns críticos, o filme aborda de forma superficial uma realidade complexa. "Jura que disseram isso? Pareceu-me bastante denso."
Até por conta do show, Maria de Medeiros não tem filmado tanto, ultimamente. "Tenho filmado menos ainda em Portugal, e não é porque assim queira. Ocorre que fazer filmes está muito difícil em Portugal, há um desconforto muito grande, o dinheiro é escasso e eu acho que os diretores ainda pensam que eu sou uma atriz cara, o que é um engano." O repórter quer saber se ela viu Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, um de seus filmes preferidos na Mostra. "Não vi, mas estou muito curiosa." Sua meta atual é trabalhar com o cineasta franco-português Sérgio Tréfaut. "Ele fez um documentário muito interessante, Lisboetas. Portugal foi sempre um país de emigrantes, que enviou muita gente para o exterior, para o Brasil, por exemplo. Sérgio fez um filme sobre o movimento oposto. Nos últimos dez anos, recebemos um milhão de imigrantes, muitos russos e ucranianos, que se estabeleceram em Lisboa. Sérgio reflete sobre isso."
Ela tem filmado na Itália e, recentemente, no Brasil, com Luiz Villaça (O Contador de Histórias), projeto pelo qual tem muito carinho. O cinema italiano merece uma reflexão. "Sinto que existe um renascimento. Não faz muito tempo que o cinema da Itália parecia morto, mas nesta renovação que a gente tem sempre, quando as cinematografias reflorescem, chegou a vez da italiana." Ela acaba de filmar Il Compleanno com o diretor Marco Filiberti. "É um gajo muito talentoso." Ao contrário de anos anteriores, a Mostra de 2008 não tem nenhum filme de Manoel de Oliveira, mas o mestre centenário segue rijo e forte. "Manoel morreria se parasse de filmar. É a paixão do cinema, todos os filmes que ainda quer fazer, que o impulsiona." Mas, na despedida, ela corrige o repórter - "Tem, sim, o curta do Manoel com Leon (Cakoff), que inaugurou Veneza."
Fonte Estado de Sao Paulo


