sábado, 6 de abril de 2013
viernes, 5 de abril de 2013
Cuidando do jardim
ELIANA CARDOSO, PH.D. PELO MIT, É PROFESSORA TITULAR DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS - O Estado de S.Paulo
ELIANA CARDOSO"Lisboa não é mais", escreve Voltaire comovido pelo amontoado de mulheres e crianças mortas no terremoto de novembro de 1755: "Que crime, que falta cometeram esses meninos
A sangrar, esmagados sob o seio materno?"
E termina o Poema Sobre o Desastre de Lisboa com versos dirigidos a Deus:
"Trago-lhe, único rei, ser infinito,
Tudo o que não tens na tua imensidão:
Os defeitos, as lamentações, o mal e a ignorância.
E poderia ainda ter somado a esperança".
Como reconciliar o mal e o sofrimento de inocentes com a bondade e a onipotência de Deus? Para o politeísmo do mundo antigo, existia uma resposta simples: alguns deuses eram do mal. Mas para o monoteísmo, o sofrimento de inocentes desafia a lógica.
Os dois primeiros capítulos do Gênesis oferecem duas explicações diferentes. No primeiro, a matéria simbólica do mal existia antes da criação do mundo. "A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas." O vazio, o abismo e a escuridão são a matéria simbólica do mal e lá estavam antes do "Haja luz" com que Deus trouxe ordem ao caos preexistente.
Em contraste com essa interpretação, a teologia dominante no tempo do francês Voltaire (1694-1778) difundia a ideia de que Deus criara o mundo do nada. A explicação para a existência do mal se encontraria no segundo capítulo do Gênesis, em que o homem, violando o mandamento de Deus, teria com seu pecado aberto portas e janelas para catástrofes, desditas e infortúnios.
Mas essa solução permanece insatisfatória, diante do argumento de que a bondade de Deus, sua onipotência e a existência do mal formam uma trindade impossível. Se o mal existe, Deus ou não é bom ou não é onipotente. Se não o é, o universo segue a ordem da natureza e a razão exige a substituição da ordem religiosa por uma ordem social, como Voltaire ilustraria em Cândido, ou o Otimismo (introdução de Michel Wood, notas de Theo Cuffe, tradução de Mário Laranjeira, Penguin Companhia).
Graças a Voltaire, a destruição de Lisboa teve consequências poderosas sobre a forma como separamos o mal natural do moral. E a interpretação do mal estava presente na discussão portuguesa sobre o significado do terremoto: mensagem divina ou fenômeno da natureza?
Malagrida, um jesuíta italiano, pregava o abandono da reconstrução e o retiro espiritual para aplacar a ira divina. Do outro lado, apoiando-se em explicações naturalistas, Pombal, o todo-poderoso primeiro-ministro, tratou de dispor dos cadáveres para evitar a peste, distribuiu alimentos e colocou a milícia na rua. Garantiu a distribuição do jornal, pois, sem informações confiáveis, rumores e especulações poderiam impedir a volta à normalidade. Malagrida morreu num auto da fé. Pombal venceu.
Mas, se Pombal e Voltaire queriam pôr fim à interpretação de Deus como portador de função pública, nem por isso acabaram com os debates sobre a providência divina. Gottfried Wilhelm Leibniz, defensor da corrente de pensamento conhecida como o otimismo filosófico, afirma - nos Essais de Theodicée Sur la Bonté de Dieu (importado, GF, R$ 38,20) - que Deus não iria criar um mundo perfeito, pois é ele o único ser perfeito. Sabendo que o mundo seria necessariamente imperfeito, criou "o melhor de todos os mundos possíveis". Ocorre, entretanto, que nossa perspectiva limitada não alcança os motivos de seu funcionamento. Essa conclusão coincide com a desenhada por Alexander Pope no Essay on Man and Other Poems (importado, Dover Thrift, R$ 8,60) que argumenta que tudo o que é está certo. O que percebemos como ruim faz parte da harmonia universal que escapa à nossa compreensão.
Ao contrário, o poema sobre o desastre de Lisboa vê como inexplicável o sofrimento causado, por exemplo, por terremotos, e rejeita o otimismo filosófico. Jean Jacques Rousseau reagiu com fúria ao poema. Acusou Voltaire de atacar a providência divina e construiu um argumento baseado na afirmação de que as cidades são centros de corrupção. Puxando a sardinha para sua brasa, pois pregava o mito do bom selvagem, afirmou que Deus nos criou para a vida simples do campo e harmonizou o mundo físico e o moral, usando os terremotos para nos mostrar onde e como devemos viver.
A resposta de Voltaire - que tomou a forma de Cândido - demorou três anos para aparecer. Ele atravessava um período de tristeza e ansiedade depois da morte da Sra. du Châtelet, uma mulher rica e inteligente, em cujo sítio Voltaire morava lá se iam 15 anos. Sim, ela era casada. Mas... Com marido compreensivo no país que inventou a tradição do ménage à trois.
A morte da Sra. Du Châtelet marca o início do período difícil durante o qual - deixando de lado o terremoto de Lisboa e a eclosão da guerra dos sete anos - Voltaire enfrentou uma estada frustrante na Prússia e cinco semanas na prisão até obter permissão para viver em Genebra. Em 1759, comprou Ferney (uma propriedade na fronteira franco-suíça) e publicou Cândido, que, circulando ilegalmente, obteve sucesso instantâneo e condenação imediata. Os temas da novela giram em torno da irrelevância da metafísica abstrata, da realidade do mal e da necessidade do trabalho para alívio do sofrimento.
Cândido - estudante e admirador de Pangloss, um filósofo dedicado à demonstração da verdade da crença de Leibniz - ama Cunegunda, filha do Barão Thunder-ten-tronckh, que o expulsa da Westfalia, quando o pega dando um beijo na amada. Forçado a se tornar soldado no Exército búlgaro se envolve em terrível batalha e alcança a Holanda, onde reencontra Pangloss, agora mendigo com o nariz carcomido pela sífilis, que pegou de Paquette, camareira no palácio do Barão. Tudo bem: se Colombo não tivesse trazido a sífilis da América, o Velho Mundo não teria conhecido o chocolate. Pangloss conta a Cândido que Cunegunda fora violada e estripada por soldados búlgaros.
Embarcam então num navio que naufraga, mas chegam a Lisboa a tempo de presenciar o terremoto e um auto da fé, em que vítimas são queimadas em fogo brando para evitar que a terra volte a tremer. Uma velha salva Cândido e o leva ao encontro de Cunegunda, que fora vendida a um mercador judeu, que divide seus favores com o grande inquisidor. Ameaçado, Cândido mata os dois. A velha planeja a fuga para Cádiz, onde Cândido é contratado para lutar contra os jesuítas do Paraguai.
A bordo do navio, a velha conta sua história de desgraças e confessa que, tendo pensado cem vezes em se matar, não o fez, porque partilha da mais ridícula das fraquezas da humanidade: ama a vida. "Pois existe algo mais tolo do que acariciar a serpente que nos devora até que ela nos tenha comido o coração?"
Essa velha é a personagem que menos sofre com as farpas satíricas de Voltaire, porque voltada para ação, não se deixa paralisar pela indiferença filosófica e oferece contrapontos à inépcia de outros personagens. Vítima de violência, estupro e escravidão, aprendeu a sobreviver e não exagerar seus ferimentos. Não guarda ilusões e, ao afirmar que continua amando a vida, articula um dos temas centrais de Voltaire: a vontade absurda, mas invencível que temos de viver.
Quando o grupo chega a Buenos Aires, Cunegunda se torna amante do governador. Alertado de que estão sendo perseguidos, Cacambo, servo de Cândido, sugere que, ao contrário do planejado, se unam aos jesuítas do Paraguai.
Ao ver dois macacos perseguindo duas meninas nuas a lhes mordiscar as nádegas, Cândido atira nos macacos e as duas meninas choram e lamentam a perda dos amantes. Em seguida, Cândido e Cacambo escapam dos Orelhinhas - que planejavam cozinhá-los para o jantar - e chegam ao Eldorado. Como Cândido não pode viver sem Cunegunda e Cacambo tem um espírito inquieto, deixam aquele paraíso com cem ovelhas carregando tesouros. Após cem dias e com apenas dois carneiros, encontram um pobre e torturado escravo e Cândido considera se deve renunciar ao otimismo de Pangloss. Cacambo pergunta: "O que é otimismo?". Responde Cândido: "É a mania de dizer que tudo está bem quando se está mal".
As viagens prosseguem. Cândido contrata um erudito pobre chamado Martinho para acompanha-lo à França. Na Inglaterra, presenciam a execução de um almirante condenado por não ter mandado matar gente em número suficiente. Chegam a Veneza e Cândido tenta refutar o cinismo de Martinho, apontando para um padre teatino e uma menina que andam juntos e felizes. Mas a mulher é Paquette, que se tornou prostituta a serviço de um padre, um oficial e um monge.
Apesar do pessimismo e sagacidade de Martinho, seria um erro escutar na sua voz a de Voltaire. Martinho não se revolta com injustiças, acredita que o diabo governa a existência humana, a miséria é inevitável e fúteis os esforços para reduzi-la - fatalismo que o aproxima do otimismo filosófico. Por que trabalhar para prevenir a guerra e a doença, se essas coisas continuarão a existir? Voltaire, ao contrário, favorece o ativismo. Sim, o mal existe, a providência divina é ininteligível, a metafísica, irrelevante, mas precisamos identificar as fontes do sofrimento remediável.
Em Constantinopla, Cândido reencontra Cunegunda, que se tornou feiíssima. Mesmo assim ele se casa com ela e compra uma pequena fazenda onde todos, insatisfeitos, se perguntam se o tédio não é ainda pior do que as torturas anteriores. Um turco lhes diz que só o trabalho impede os três grandes males da humanidade: o tédio, o vício e a pobreza. Martinho observa: "Trabalhemos sem arrazoar; é o único meio de tornar a vida suportável". Pangloss ainda filosofa, provando que tudo acabou como deveria. Cândido aprova, mas tem a palavra final: "Bem dito, mas é preciso cultivar nosso jardim".
Na fazenda de Cândido, o trabalho combate os efeitos perniciosos do tédio e baniram-se hierarquias destrutivas de instituições políticas e religiosas. Embora a solução possa não funcionar em grande escala, talvez permita certo grau de autonomia e paz. E o leitor termina como o protagonista, provisoriamente esperançoso, mas desconfiado do próprio julgamento. Afinal, uma postura mais esperançosa violaria o tom satírico do conto.
A sátira funciona também ao nível formal ao zombar da credulidade dos leitores de ficção e escolher uma estrutura narrativa que depende dos gêneros populares como os contos de fadas e as narrativas picarescas. Abandona o realismo a favor de hipérboles para sublinhar o absurdo e estende a ausência de realismo a personagens estereotipados. Cândido é uma paródia do herói do Bildungsroman. Embora ridículo na sua credulidade, é capaz de reconhecer o próprio desejo e a idealização de Cunegunda lhe permite perseguir a felicidade. No diálogo final, o herói ingênuo parece distanciar-se do otimismo puro de seu mentor.
Voltaire nos propõe mais do que a demonstração da existência do mal no mundo criado por uma divindade benéfica. Catástrofes naturais aparecem na narrativa, mas não só são apenas três (a tempestade na costa de Portugal, o terremoto de Lisboa e a peste da Argélia), como de pequena monta quando comparadas aos horrores criados pelo homem. A pergunta que ele nos deixa é como homens bons devem viver num mundo mau.
jueves, 4 de abril de 2013
Luis Goytisolo y el R.I.P. de la novela
En El porvenir de la palabra (Taurus, 2002), volumen en el
que reunió sus artículos ensayísticos y literarios escritos a partir de
la transición, ya apuntaba algunos de los temas en los que ahora
profundiza Naturaleza de la novela. “Todo ello”, explica, “me
llevó a pensar en los orígenes de la novela; algunos factores han sido
muy importantes, como la creación de la imprenta, el Renacimiento, el
momento en el que la cultura se separa de la Iglesia...”.
“Los hábitos sociales tienen un papel fundamental. A partir de la imprenta se pudo leer en privado y evolucionó deprisa. El Quijote fue el gran punto de partida. De mediados del siglo XIX a mediados del XX fue una época de auge, pero en luego empieza el declive; y cuando llega la televisión, y volvemos a hablar de hábitos sociales, la gente tiene menos tiempo para la lectura”.
A Goytisolo le preocupa que la lectura se convierta en una actividad especializada y que la gran mayoría deje de leer obras de cualquier tipo de creación literaria. “Me preocupa, en el fondo, que la cultura, y más concretamente la literaria, se convierta para las mayorías en algo prescindible, accesorio”, señala en el epílogo de su libro.
La revolución tecnológica e Internet “marcan una época tan importante como lo fue el nacimiento de la imprenta”, asegura. “¿Cuál será el futuro? Es muy difícil de imaginar, como fue difícil imaginar en el siglo XV lo que iba a significar la imprenta”. El escritor prevé que se inventarán nuevos artilugios que hagan la lectura más cómoda y, dice en el epílogo de su obra premiada: “El libro impreso se convertirá en un objeto de coleccionismo, algo así como un vino de reserva para sibaritas”.
Leia mais aqui
“Los hábitos sociales tienen un papel fundamental. A partir de la imprenta se pudo leer en privado y evolucionó deprisa. El Quijote fue el gran punto de partida. De mediados del siglo XIX a mediados del XX fue una época de auge, pero en luego empieza el declive; y cuando llega la televisión, y volvemos a hablar de hábitos sociales, la gente tiene menos tiempo para la lectura”.
A Goytisolo le preocupa que la lectura se convierta en una actividad especializada y que la gran mayoría deje de leer obras de cualquier tipo de creación literaria. “Me preocupa, en el fondo, que la cultura, y más concretamente la literaria, se convierta para las mayorías en algo prescindible, accesorio”, señala en el epílogo de su libro.
La revolución tecnológica e Internet “marcan una época tan importante como lo fue el nacimiento de la imprenta”, asegura. “¿Cuál será el futuro? Es muy difícil de imaginar, como fue difícil imaginar en el siglo XV lo que iba a significar la imprenta”. El escritor prevé que se inventarán nuevos artilugios que hagan la lectura más cómoda y, dice en el epílogo de su obra premiada: “El libro impreso se convertirá en un objeto de coleccionismo, algo así como un vino de reserva para sibaritas”.
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martes, 2 de abril de 2013
En el origen de la vanguardia
Durante un par de días me dediqué a constatar que en efecto esta era la primera edición en español de El absoluto literario,
de Philippe Lacoue-Labarthe y Jean-Luc Nancy, según anuncia el editor
(Eterna Cadencia, Buenos Aires). Al parecer han circulado algunas
traducciones privadas (de Emilio Bernini, por ejemplo), pero nunca antes
se había editado completo este tratado, uno de los más influyentes en
la actual filosofía del arte.
El caso es que apareció originalmente en 1978 (Seuil), hace pues treinta y cinco años, pero todavía nadie se había atrevido con él en España. Me parece sorprendente. Lacoue (muerto en 2007) y Nancy pertenecían a una generación que no sólo se había alejado del aún poderoso estructuralismo, sino que desconfiaba de los post-estructuralistas, de modo que tomaron un camino propio a la sombra de Heidegger. La producción de ambos filósofos ha sido abundante y de notable interés. Sin embargo, este trabajo que ahora se edita en español es, a mi modo de ver, su mejor contribución.
En ella analizan uno de los momentos más fascinantes de la modernidad. Como ellos mismos dicen, se trata de un episodio efímero (pongamos que de 1798 a 1803), un grupo de gente cambiante (aunque siempre dirigidos por los hermanos Schlegel) y una revista de la que sólo se editaron seis números (Athenaeum). He dicho antes que es un momento de la modernidad, aunque en todos los manuales aparece como un momento del romanticismo e incluso del primer romanticismo (el frühromantik). Ciertamente es un prototipo de romanticismo, pero en una acepción de la palabra que, a mi modo de ver, debería incluir un vastísimo proyecto que sólo acaba hacia 1960. Si se acepta esta noción, el grupo aquí estudiado fue de los primeros en poner las bases de la modernidad: “Se trata, de hecho, y no es exagerado decirlo, del primer grupo de ‘vanguardia’ de la historia” (página 27).
El invento de este grupo, al que podemos llamar “del Athenaeum”, es nada menos que la literatura en cuanto tal. Hasta ese momento no había tal cosa como una literatura en el sentido de un arte absoluto de la palabra escrita. Había, eso sí, un arte de la poesía, otro del drama, algo (poco) de la novela, y así sucesivamente. El grupo del Athenaeum unifica la totalidad del arte de la palabra y propone una primera teoría de la literatura como absoluto. Asombrosamente, en esa teoría la prosa toma el lugar de la más alta poesía y la literatura queda fundida en la filosofía en tanto que dos modos (literarios) de expresar el mundo en su verdad más recóndita. Esto es el “absoluto literario”.
Así lo expone Friedrich Schlegel en su Conversación sobre la poesía: “Todo arte y toda ciencia que actúan mediante la palabra, cuando se ejercen como arte por sí mismas, y cuando alcanzan su cima más alta, aparecen como poesía” (p. 380). No es sólo un ataque contra la secular teoría de los géneros y sus forzosos parangones, es también la negación de toda la filología hasta ese momento y la propuesta de una historia de la literatura tan audaz que ni siquiera es posible escribirla en nuestros días.
El grupo estaba compuesto por dos dictadores, los hermanos Schlegel, y un conjunto variable de afiliados (Novalis, Wackenroder, Brentano, Von Arnim) que se reunían, se expulsaban, se excluían o formaban secesiones, como es habitual en cualquier movimiento de vanguardia. En su proximidad giraba una nube de mujeres poco típicas de su época, sexualmente emancipadas, con una notable formación filosófica y aguda percepción artística. Son Sophie Tieck, Bettina von Arnim, Carolina Michaelis o Dorothea Mendelssohn-Veit. Todas acabaron casadas con alguno de los participantes del grupo.
Había también una relación externa, pero intensa, con personajes de extraordinaria importancia como Hölderlin, Schelling, Hegel, Schleiermacher o Goethe. Este último los detestaba, pero a él se unirían los Schlegel cuando la edad los volviera rapaces y la invasión napoleónica pusiera en marcha el nacionalismo germano.
No sólo inventaron la literatura tal y como la entendemos ahora. También transformaron la recepción de la herencia griega. A veces parece que la palabra “romanticismo” sólo puede usarse para asuntos empalagosos, pero es un enorme error. El romanticismo fue un movimiento revolucionario y salvaje que sacó de la quietud marmórea, del estatismo idealista, a los neoclásicos y a los kantianos. La Grecia que aparece tras la crítica de los románticos del Athenaeum ya no tiene nada que ver con “la belleza”, la “serenidad” o “la perfección”, es la Grecia arcaica, infernal, enigmática, siniestra que años más tarde Nietzsche expondrá magistralmente en su seminal Origen de la tragedia.
La traducción es meritoria, aunque con imperfecciones inevitables dada la oscuridad del propio texto (téngase en cuenta que la mitad del libro es una antología de escritos de los Schlegel, Schelling y Novalis), lo que las hace excusables. Sólo he pillado un error grave, pero que puede corregirse con facilidad: la página 22 da como fechas del Sturm und Drang 1870-1880. Son, evidentemente, 1770-1780. Contando con estas mínimas mancillas, el libro es imprescindible para cualquier interesado por la teoría del arte y aun por la teoría de la teoría.
Fuente El pais
El caso es que apareció originalmente en 1978 (Seuil), hace pues treinta y cinco años, pero todavía nadie se había atrevido con él en España. Me parece sorprendente. Lacoue (muerto en 2007) y Nancy pertenecían a una generación que no sólo se había alejado del aún poderoso estructuralismo, sino que desconfiaba de los post-estructuralistas, de modo que tomaron un camino propio a la sombra de Heidegger. La producción de ambos filósofos ha sido abundante y de notable interés. Sin embargo, este trabajo que ahora se edita en español es, a mi modo de ver, su mejor contribución.
En ella analizan uno de los momentos más fascinantes de la modernidad. Como ellos mismos dicen, se trata de un episodio efímero (pongamos que de 1798 a 1803), un grupo de gente cambiante (aunque siempre dirigidos por los hermanos Schlegel) y una revista de la que sólo se editaron seis números (Athenaeum). He dicho antes que es un momento de la modernidad, aunque en todos los manuales aparece como un momento del romanticismo e incluso del primer romanticismo (el frühromantik). Ciertamente es un prototipo de romanticismo, pero en una acepción de la palabra que, a mi modo de ver, debería incluir un vastísimo proyecto que sólo acaba hacia 1960. Si se acepta esta noción, el grupo aquí estudiado fue de los primeros en poner las bases de la modernidad: “Se trata, de hecho, y no es exagerado decirlo, del primer grupo de ‘vanguardia’ de la historia” (página 27).
El invento de este grupo, al que podemos llamar “del Athenaeum”, es nada menos que la literatura en cuanto tal. Hasta ese momento no había tal cosa como una literatura en el sentido de un arte absoluto de la palabra escrita. Había, eso sí, un arte de la poesía, otro del drama, algo (poco) de la novela, y así sucesivamente. El grupo del Athenaeum unifica la totalidad del arte de la palabra y propone una primera teoría de la literatura como absoluto. Asombrosamente, en esa teoría la prosa toma el lugar de la más alta poesía y la literatura queda fundida en la filosofía en tanto que dos modos (literarios) de expresar el mundo en su verdad más recóndita. Esto es el “absoluto literario”.
Así lo expone Friedrich Schlegel en su Conversación sobre la poesía: “Todo arte y toda ciencia que actúan mediante la palabra, cuando se ejercen como arte por sí mismas, y cuando alcanzan su cima más alta, aparecen como poesía” (p. 380). No es sólo un ataque contra la secular teoría de los géneros y sus forzosos parangones, es también la negación de toda la filología hasta ese momento y la propuesta de una historia de la literatura tan audaz que ni siquiera es posible escribirla en nuestros días.
El grupo estaba compuesto por dos dictadores, los hermanos Schlegel, y un conjunto variable de afiliados (Novalis, Wackenroder, Brentano, Von Arnim) que se reunían, se expulsaban, se excluían o formaban secesiones, como es habitual en cualquier movimiento de vanguardia. En su proximidad giraba una nube de mujeres poco típicas de su época, sexualmente emancipadas, con una notable formación filosófica y aguda percepción artística. Son Sophie Tieck, Bettina von Arnim, Carolina Michaelis o Dorothea Mendelssohn-Veit. Todas acabaron casadas con alguno de los participantes del grupo.
Había también una relación externa, pero intensa, con personajes de extraordinaria importancia como Hölderlin, Schelling, Hegel, Schleiermacher o Goethe. Este último los detestaba, pero a él se unirían los Schlegel cuando la edad los volviera rapaces y la invasión napoleónica pusiera en marcha el nacionalismo germano.
No sólo inventaron la literatura tal y como la entendemos ahora. También transformaron la recepción de la herencia griega. A veces parece que la palabra “romanticismo” sólo puede usarse para asuntos empalagosos, pero es un enorme error. El romanticismo fue un movimiento revolucionario y salvaje que sacó de la quietud marmórea, del estatismo idealista, a los neoclásicos y a los kantianos. La Grecia que aparece tras la crítica de los románticos del Athenaeum ya no tiene nada que ver con “la belleza”, la “serenidad” o “la perfección”, es la Grecia arcaica, infernal, enigmática, siniestra que años más tarde Nietzsche expondrá magistralmente en su seminal Origen de la tragedia.
La traducción es meritoria, aunque con imperfecciones inevitables dada la oscuridad del propio texto (téngase en cuenta que la mitad del libro es una antología de escritos de los Schlegel, Schelling y Novalis), lo que las hace excusables. Sólo he pillado un error grave, pero que puede corregirse con facilidad: la página 22 da como fechas del Sturm und Drang 1870-1880. Son, evidentemente, 1770-1780. Contando con estas mínimas mancillas, el libro es imprescindible para cualquier interesado por la teoría del arte y aun por la teoría de la teoría.
Fuente El pais
lunes, 1 de abril de 2013
domingo, 31 de marzo de 2013
Biblioteca Nacional
O ocaso da Biblioteca Nacional
- Os bastidores da crise estrutural que assola a maior instituição do gênero na América Latina — que culminou na queda de seu presidente — e os principais problemas que o novo gestor terá que resolver
Publicado:
RIO - Na última terça-feira, a notícia da demissão do presidente da
Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, pela ministra da Cultura,
Marta Suplicy, se não chegou a surpreender (Marta vinha realizando
trocas nos órgãos do MinC desde setembro) serviu para chamar atenção
para um problema que vem se arrastando há décadas na maior biblioteca da
América Latina: a completa precariedade da sua estrutura. Mais
importante do que investigar se a degradação do acervo que contempla
toda a memória nacional agravou-se na gestão do escritor Galeno Amorim
(2011-2013), do sociólogo Muniz Sodré (2006-2011) ou do bibliófilo Pedro
Corrêa do Lago (2000-2005), só para citar os últimos presidentes da BN,
é saber como o próximo gestor, o cientista político Renato Lessa, vai
encarar os percalços que o esperam. Nas duas últimas semanas, a Revista O
GLOBO acompanhou os bastidores da rotina da biblioteca. E pode
garantir: não são poucos os problemas.
— A Biblioteca Nacional parou no tempo. Do jeito que está, vai perder completamente sua função — lamenta o economista, engenheiro e advogado José Roberto Fiorêncio, que se aposentou há um ano do emprego no BNDES e desde então frequenta a biblioteca diariamente, das 9h às 19h, para pesquisas de interesse pessoal, que vão dos recursos hídricos da Amazônia às teorias do filósofo alemão Karl Jaspers. — Em outros países do mundo, a dinâmica dos moradores com suas bibliotecas é muito mais rica. Esta aqui virou um museu, onde o turista, no máximo, conhece numa visita guiada. E nunca mais volta. Os próprios moradores da cidade a ignoram. Ela não faz parte da vida do brasileiro. Não há link com as escolas, não são vistos estudantes por aqui. É irônico que a BN chegue a esse ponto justamente no ano em que representará o Brasil na maior e mais moderna feira de livros do mundo (o Brasil é o país homenageado deste ano na Feira de Frankfurt, na Alemanha).
O público que vive a Biblioteca Nacional é variado. Há pesquisadores de ocasião, como José Roberto, cientistas de ponta, graduandos, turistas, leitores de fim de tarde (muitos), vestibulandos, malucos-beleza, estudantes do ensino básico e do fundamental (poucos), intelectuais estrangeiros, curiosos e até moradores de rua. Todos atravessam dificuldades para usufruir o acervo da biblioteca, a oitava maior do mundo. Os problemas dão as caras logo na entrada do prédio histórico, datado de 1910. Desde outubro do ano passado, a suntuosa fachada da instituição, localizada na Cinelândia, no Centro do Rio, está escondida por estruturas de alumínio. A medida emergencial é para evitar que rebocos do edifício malconservado acertem a cabeça de um passante, como quase aconteceu em outubro, quando um naco da fachada, do tamanho de uma bisnaga, despencou do alto.
Os problemas seguem biblioteca adentro. Chegando à recepção, os “usuários”, como são chamados no jargão bibliotecário, apresentam um documento de identificação, deixam os pertences num guarda-volumes e passam por catracas de segurança, que deveriam controlar a entrada e saída do prédio. Quebradas há mais de um ano, no entanto, as peças têm efeito meramente cênico. Não registram nada.
De lá, o frequentador segue até o setor que lhe convém: periódicos, obras gerais, iconografia, cartografia, manuscritos ou obras raras. Com o ar-condicionado inoperante desde maio de 2012, quando houve o rompimento de uma tubulação do aparelho central (incidente que obrigou bibliotecários a suspender as barras das calças e empunhar rodos para salvar o acervo de um alagamento), o calor é a sensação primeira, e premente, nos salões da biblioteca.
A dica é frequentar a instituição pela manhã. À tarde, o sol incide diretamente nas claraboias do edifício, transformando os salões de leitura numa estufa. O setor de obras raras foi apelidado de “micro-ondas” pelos leitores. Os ventiladores improvisados , alguns levados de casa pelos próprios funcionários, não dão conta.
— Gosto de calor, mas sou italiano — justifica o diretor do Instituto de Estudos Românicos da Itália, Archimedes Muzi, que todo ano passa um mês no Rio para fazer pesquisas no acervo da biblioteca. — Mas é claro que falo isso de brincadeira. Este calor é extremamente nocivo para documentos históricos. Veja só como este livro já está todo enrugado (aponta o volume sobre o qual está debruçado, do século XVIII). Este acervo já deve estar todo comprometido. É uma situação inacreditável manter uma biblioteca como esta fora dos padrões de climatização (o ideal, segundo as normas, seria manter o ambiente a 22 graus Celsius).
Na tarde do dia 19 de março, uma terça-feira, Archimede fazia pesquisas no setor de iconografia. Sobre a mesa, seu computador estava conectado a uma tomada da parede. Seria uma cena corriqueira em qualquer biblioteca do mundo, menos na brasileira: aqui, pesquisadores não podem usar as tomadas para carregar seus equipamentos. Se os tablets, computadores ou celulares descarregarem, paciência. O jeito é pedir para uma das mocinhas da recepção carregarem “rapidinho, sem ninguém ver”. Ou caminhar até o metrô Cinelândia e espetar o aparelho nalguma tomada livre da estação. Ou voltar para casa. O aviso está em todas as portas da biblioteca: a medida é para não sobrecarregar a rede elétrica já comprometida. Ainda mais agora, com tantos ventiladores ligados (são cerca de dez aparelhos por salão). Para conquistar o direito, Archimede teve de pedir uma autorização especial, com o argumento de que frequenta a instituição brasileira há mais de 30 anos.
— Você já esteve na Biblioteca Nacional de Paris? De Roma? Lá o ambiente é construído para atrair o pesquisador, para tornar sua experiência produtiva. Penso que tomadas para carregar os equipamentos de trabalho são o mínimo. Ora, quem vai querer ficar estudando dessa maneira aqui dentro? — reclama o italiano.
Archimede não imaginava que a situação pudesse piorar. Três dias depois, em 22 de março, os bebedouros foram retirados para manutenção. Se já morriam de calor, os frequentadores agora não têm nem mais onde beber água.
— Às vezes, eu me pego pensando: qual o sentido de alguém sair de casa no calor e ficar enfurnado aqui lendo um livro? Pelo preço da passagem de ônibus, o leitor compra um livro de bolso na banca de jornal e lê em casa — admite uma funcionária do setor de pesquisa à distância, que prefere não se identificar (a Biblioteca Nacional atende a pesquisadores de todo o Brasil e do exterior, que fazem pedidos por e-mail ou telefone).
A funcionária (que no último mês juntou-se aos colegas do setor numa “vaquinha” de R$ 1, cada, para a compra de um mouse) parece ter razão. Se a estrutura precária, que inclui ar-condicionado quebrado, sistema elétrico e de combate a incêndio defasados, má conservação do edifício e dos equipamentos de segurança, é, hoje, o principal problema enfrentado pela Biblioteca Nacional, a queda do número de leitores surge, consequentemente, como outro drama da instituição. Segundo a Associação dos Servidores da Biblioteca Nacional, a baixa no número de frequentadores, desde a quebra do ar-condicionado, é de mais de 30%.
É só passar algumas horas na biblioteca para notar os amplos salões vazios. Há setores, como os de referência e cartografia, que passam dias sem receber vivalma. A queda da frequência, no entanto, é contestada pela instituição. De acordo com dados atuais da BN, 736 mil pessoas estiveram lá em 2011 e 755 mil em 2012, uma média de dois mil usuários por dia.
No setor de periódicos, os problemas estão jogados pelo salão. Há 20 computadores novinhos, desligados, tomando poeira, diante de máquinas de microfilmes que funcionam a manivela. Os ventiladores dividem o chão com as caixas de livros amontoadas por falta de espaço nos armazéns do edifício.
— Frequento a BN há 12 anos. Nunca vi a casa numa situação tão precária — diz o historiador Eduardo Cavalcanti, que pesquisa a construção do racismo no futebol. — Muitas vezes eu não pude ter acesso aos microfilmes por causa do calor. Sob altas temperaturas, eles podem “avinagrar”, ou seja, colar nas lentes, sendo danificados para sempre. E a pesquisa fica parada.
Colega de Eduardo nas máquinas de microfilmes, o escritor Marco Aurélio Barroso, de 67 anos, frequenta a instituição diariamente desde 1999. A pesquisa no acervo já gerou três livros, entre eles, a biografia do cantor Nelson Gonçalves, “A revolta do boêmio”, em 2002. A recarga do seu laptop ele faz num restaurante, quando sai para almoçar. Marco é incisivo nas críticas.
— Há dois problemas principais na biblioteca: a falta de conservação do acervo e uma sequência de diretores que vem de fora e não conhece a instituição. Por isso, ela chegou ao ponto em que está. Eu estou aqui todos os dias e nunca vi um diretor descer do gabinete para conversar com os pesquisadores — lamenta Marco Aurélio, que atualmente faz uma varredura em periódicos de 1910 aos dias atuais para um novo livro, o que o fez constatar que muitas edições de jornais importantes das décadas de 1930 e 1940 já estão perdidos.
A lista de pesquisas atravancadas pelas péssimas condições do acervo é extensa. Doutoranda em Ciências Culturais da Universidade Livre de Berlim, a alemã Christina Peters, de 32 anos, passou três períodos da sua pós-graduação mergulhada nos documentos da BN. Não conseguiu concluir o trabalho.
— Não é possível copiar ou escanear a partir dos microfilmes, como é na Unicamp. Também não podemos tirar fotos, como no Arquivo do Estado de São Paulo. Para reprodução do material antigo, temos que pagar R$ 4 por página, e o pedido é lento e burocrático — detalha Christina.
Nem precisa ser íntimo das estantes da Cinelândia para criticar a instituição. Na última segunda-feira, o estudante de Desenho Industrial Thiago Crespo, de 24 anos, foi à BN pela primeira vez. Para concluir sua monografia sobre design automotivo, buscava revistas de transportes dos anos 60. Encontrou o que queria, só não conseguiu ficar debruçado sobre os volumes, copiando desenhos a lápis (é proibido usar caneta).
— É impossível com esse calor.
Do outro lado do salão dos periódicos, está o de obras gerais. É onde os usuários encontram os mais diversos títulos. Há uma senhora que todas as sextas-feiras consulta manuais de bruxaria. Um leitor que só pede Agatha Christie. O cantor e compositor underground Rogério Skylab pode ser visto lá pelo menos uma vez por semana, desde os 17 anos. E foi naquele salão que o poeta Carlos Drummond de Andrade apossou-se da mesa 4 para fazer suas leituras diárias.
Apenas quatro computadores, de um total de 20, servem aos leitores que querem encontrar as obras no sistema de dados da instituição. Nenhum com internet. Apesar de ter digitalizado boa parte do seu acervo de periódicos, inaugurando em agosto o projeto Hemeroteca Digital, a BN não tem rede wi-fi.
Se o estado geral da sede é desolador, mais ainda é o do chamado prédio anexo, um velho galpão, na Zona Portuária, que serve para guardar o que não cabe mais no prédio principal. Pela Lei do Depósito Legal, toda publicação brasileira deve ter um exemplar arquivado na BN. Por dia, chegam 150 livros. De jornais, do “Diário de Caratinga” à “Gazeta de Alagoas”, chega o equivalente a uma banca por dia. Vai tudo para o tal espaço, de 16 mil metros quadrados, que poderia ser usado como cenário de filmes de guerra, como se os jornais empilhados formassem trincheiras.
O local está sujeito a um desastre a qualquer momento. Não há saída de emergência, os telhados têm infiltrações, as janelas estão quebradas, e não há qualquer sistema de combate a incêndios. Em julho, parte do piso cedeu. Em outubro, houve um princípio de incêndio, amainado pelos próprios servidores. Eles comparam a falta de segurança do local à da boate Kiss, cenário do incêndio que vitimou 241 pessoas em janeiro. É nesse estado que estão estocadas coleções preciosas da BN, como a de histórias em quadrinhos — das mais completas do mundo.
— Com as obras do Porto Maravilha no entorno, o anexo virou uma ilha cercada de poeira por todos os lados — compara um dos funcionários, sem se identificar. — Manter tudo higienizado é enxugar gelo.
Entre os servidores, a insatisfação com a gestão de Galeno vinha desde a incorporação da Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) pela Fundação Biblioteca Nacional, logo depois da sua posse. De acordo com os funcionários, a medida tirava o foco da administração da biblioteca. A crise apertou depois do acidente com o ar-condicionado, em maio. Houve a queda do reboco, em outubro, e a paralisação dos funcionários, para pleitear melhorias das condições de trabalho, em janeiro. No último dia 22, duas servidoras apresentaram cartas de demissão com fortes críticas à gestão do presidente.
No dia em que foi demitido, Galeno Amorim deixou com Marta Suplicy um relatório que batizou de “BN+200”. No documento, reconhece a série de problemas enfrentados durante sua gestão, exalta os feitos (como a ampliação do acervo digitalizado) e aponta o caminho que deve ser tomado pelo próximo gestor, com prazos que vão de 2014 a 2022. Na lista de desafios, iniciar as reformas para transformar o anexo num local adequado para guardar 80% do acervo da BN e reestruturar completamente o prédio-sede. Para isso, a ministra da Cultura já havia anunciado, em setembro, a liberação de R$ 70 milhões do BNDES.
— A Biblioteca Nacional precisa de uma intervenção forte. Não bastam ações pontuais. Só agora, por exemplo, foram feitos os testes finais para pôr em funcionamento o sistema wi-fi e instalar o primeiro data center da história da instituição. Acaba este mês o projeto executivo para toda a reforma elétrica do prédio. Vi isso de início e iniciei os procedimentos necessários para mudar o quadro. Os resultados aparecerão — declarou Galeno, logo após ser afastado do cargo.
— A Biblioteca Nacional parou no tempo. Do jeito que está, vai perder completamente sua função — lamenta o economista, engenheiro e advogado José Roberto Fiorêncio, que se aposentou há um ano do emprego no BNDES e desde então frequenta a biblioteca diariamente, das 9h às 19h, para pesquisas de interesse pessoal, que vão dos recursos hídricos da Amazônia às teorias do filósofo alemão Karl Jaspers. — Em outros países do mundo, a dinâmica dos moradores com suas bibliotecas é muito mais rica. Esta aqui virou um museu, onde o turista, no máximo, conhece numa visita guiada. E nunca mais volta. Os próprios moradores da cidade a ignoram. Ela não faz parte da vida do brasileiro. Não há link com as escolas, não são vistos estudantes por aqui. É irônico que a BN chegue a esse ponto justamente no ano em que representará o Brasil na maior e mais moderna feira de livros do mundo (o Brasil é o país homenageado deste ano na Feira de Frankfurt, na Alemanha).
O público que vive a Biblioteca Nacional é variado. Há pesquisadores de ocasião, como José Roberto, cientistas de ponta, graduandos, turistas, leitores de fim de tarde (muitos), vestibulandos, malucos-beleza, estudantes do ensino básico e do fundamental (poucos), intelectuais estrangeiros, curiosos e até moradores de rua. Todos atravessam dificuldades para usufruir o acervo da biblioteca, a oitava maior do mundo. Os problemas dão as caras logo na entrada do prédio histórico, datado de 1910. Desde outubro do ano passado, a suntuosa fachada da instituição, localizada na Cinelândia, no Centro do Rio, está escondida por estruturas de alumínio. A medida emergencial é para evitar que rebocos do edifício malconservado acertem a cabeça de um passante, como quase aconteceu em outubro, quando um naco da fachada, do tamanho de uma bisnaga, despencou do alto.
Os problemas seguem biblioteca adentro. Chegando à recepção, os “usuários”, como são chamados no jargão bibliotecário, apresentam um documento de identificação, deixam os pertences num guarda-volumes e passam por catracas de segurança, que deveriam controlar a entrada e saída do prédio. Quebradas há mais de um ano, no entanto, as peças têm efeito meramente cênico. Não registram nada.
De lá, o frequentador segue até o setor que lhe convém: periódicos, obras gerais, iconografia, cartografia, manuscritos ou obras raras. Com o ar-condicionado inoperante desde maio de 2012, quando houve o rompimento de uma tubulação do aparelho central (incidente que obrigou bibliotecários a suspender as barras das calças e empunhar rodos para salvar o acervo de um alagamento), o calor é a sensação primeira, e premente, nos salões da biblioteca.
A dica é frequentar a instituição pela manhã. À tarde, o sol incide diretamente nas claraboias do edifício, transformando os salões de leitura numa estufa. O setor de obras raras foi apelidado de “micro-ondas” pelos leitores. Os ventiladores improvisados , alguns levados de casa pelos próprios funcionários, não dão conta.
— Gosto de calor, mas sou italiano — justifica o diretor do Instituto de Estudos Românicos da Itália, Archimedes Muzi, que todo ano passa um mês no Rio para fazer pesquisas no acervo da biblioteca. — Mas é claro que falo isso de brincadeira. Este calor é extremamente nocivo para documentos históricos. Veja só como este livro já está todo enrugado (aponta o volume sobre o qual está debruçado, do século XVIII). Este acervo já deve estar todo comprometido. É uma situação inacreditável manter uma biblioteca como esta fora dos padrões de climatização (o ideal, segundo as normas, seria manter o ambiente a 22 graus Celsius).
Na tarde do dia 19 de março, uma terça-feira, Archimede fazia pesquisas no setor de iconografia. Sobre a mesa, seu computador estava conectado a uma tomada da parede. Seria uma cena corriqueira em qualquer biblioteca do mundo, menos na brasileira: aqui, pesquisadores não podem usar as tomadas para carregar seus equipamentos. Se os tablets, computadores ou celulares descarregarem, paciência. O jeito é pedir para uma das mocinhas da recepção carregarem “rapidinho, sem ninguém ver”. Ou caminhar até o metrô Cinelândia e espetar o aparelho nalguma tomada livre da estação. Ou voltar para casa. O aviso está em todas as portas da biblioteca: a medida é para não sobrecarregar a rede elétrica já comprometida. Ainda mais agora, com tantos ventiladores ligados (são cerca de dez aparelhos por salão). Para conquistar o direito, Archimede teve de pedir uma autorização especial, com o argumento de que frequenta a instituição brasileira há mais de 30 anos.
— Você já esteve na Biblioteca Nacional de Paris? De Roma? Lá o ambiente é construído para atrair o pesquisador, para tornar sua experiência produtiva. Penso que tomadas para carregar os equipamentos de trabalho são o mínimo. Ora, quem vai querer ficar estudando dessa maneira aqui dentro? — reclama o italiano.
Archimede não imaginava que a situação pudesse piorar. Três dias depois, em 22 de março, os bebedouros foram retirados para manutenção. Se já morriam de calor, os frequentadores agora não têm nem mais onde beber água.
— Às vezes, eu me pego pensando: qual o sentido de alguém sair de casa no calor e ficar enfurnado aqui lendo um livro? Pelo preço da passagem de ônibus, o leitor compra um livro de bolso na banca de jornal e lê em casa — admite uma funcionária do setor de pesquisa à distância, que prefere não se identificar (a Biblioteca Nacional atende a pesquisadores de todo o Brasil e do exterior, que fazem pedidos por e-mail ou telefone).
A funcionária (que no último mês juntou-se aos colegas do setor numa “vaquinha” de R$ 1, cada, para a compra de um mouse) parece ter razão. Se a estrutura precária, que inclui ar-condicionado quebrado, sistema elétrico e de combate a incêndio defasados, má conservação do edifício e dos equipamentos de segurança, é, hoje, o principal problema enfrentado pela Biblioteca Nacional, a queda do número de leitores surge, consequentemente, como outro drama da instituição. Segundo a Associação dos Servidores da Biblioteca Nacional, a baixa no número de frequentadores, desde a quebra do ar-condicionado, é de mais de 30%.
É só passar algumas horas na biblioteca para notar os amplos salões vazios. Há setores, como os de referência e cartografia, que passam dias sem receber vivalma. A queda da frequência, no entanto, é contestada pela instituição. De acordo com dados atuais da BN, 736 mil pessoas estiveram lá em 2011 e 755 mil em 2012, uma média de dois mil usuários por dia.
No setor de periódicos, os problemas estão jogados pelo salão. Há 20 computadores novinhos, desligados, tomando poeira, diante de máquinas de microfilmes que funcionam a manivela. Os ventiladores dividem o chão com as caixas de livros amontoadas por falta de espaço nos armazéns do edifício.
— Frequento a BN há 12 anos. Nunca vi a casa numa situação tão precária — diz o historiador Eduardo Cavalcanti, que pesquisa a construção do racismo no futebol. — Muitas vezes eu não pude ter acesso aos microfilmes por causa do calor. Sob altas temperaturas, eles podem “avinagrar”, ou seja, colar nas lentes, sendo danificados para sempre. E a pesquisa fica parada.
Colega de Eduardo nas máquinas de microfilmes, o escritor Marco Aurélio Barroso, de 67 anos, frequenta a instituição diariamente desde 1999. A pesquisa no acervo já gerou três livros, entre eles, a biografia do cantor Nelson Gonçalves, “A revolta do boêmio”, em 2002. A recarga do seu laptop ele faz num restaurante, quando sai para almoçar. Marco é incisivo nas críticas.
— Há dois problemas principais na biblioteca: a falta de conservação do acervo e uma sequência de diretores que vem de fora e não conhece a instituição. Por isso, ela chegou ao ponto em que está. Eu estou aqui todos os dias e nunca vi um diretor descer do gabinete para conversar com os pesquisadores — lamenta Marco Aurélio, que atualmente faz uma varredura em periódicos de 1910 aos dias atuais para um novo livro, o que o fez constatar que muitas edições de jornais importantes das décadas de 1930 e 1940 já estão perdidos.
A lista de pesquisas atravancadas pelas péssimas condições do acervo é extensa. Doutoranda em Ciências Culturais da Universidade Livre de Berlim, a alemã Christina Peters, de 32 anos, passou três períodos da sua pós-graduação mergulhada nos documentos da BN. Não conseguiu concluir o trabalho.
— Não é possível copiar ou escanear a partir dos microfilmes, como é na Unicamp. Também não podemos tirar fotos, como no Arquivo do Estado de São Paulo. Para reprodução do material antigo, temos que pagar R$ 4 por página, e o pedido é lento e burocrático — detalha Christina.
Nem precisa ser íntimo das estantes da Cinelândia para criticar a instituição. Na última segunda-feira, o estudante de Desenho Industrial Thiago Crespo, de 24 anos, foi à BN pela primeira vez. Para concluir sua monografia sobre design automotivo, buscava revistas de transportes dos anos 60. Encontrou o que queria, só não conseguiu ficar debruçado sobre os volumes, copiando desenhos a lápis (é proibido usar caneta).
— É impossível com esse calor.
Do outro lado do salão dos periódicos, está o de obras gerais. É onde os usuários encontram os mais diversos títulos. Há uma senhora que todas as sextas-feiras consulta manuais de bruxaria. Um leitor que só pede Agatha Christie. O cantor e compositor underground Rogério Skylab pode ser visto lá pelo menos uma vez por semana, desde os 17 anos. E foi naquele salão que o poeta Carlos Drummond de Andrade apossou-se da mesa 4 para fazer suas leituras diárias.
Apenas quatro computadores, de um total de 20, servem aos leitores que querem encontrar as obras no sistema de dados da instituição. Nenhum com internet. Apesar de ter digitalizado boa parte do seu acervo de periódicos, inaugurando em agosto o projeto Hemeroteca Digital, a BN não tem rede wi-fi.
Se o estado geral da sede é desolador, mais ainda é o do chamado prédio anexo, um velho galpão, na Zona Portuária, que serve para guardar o que não cabe mais no prédio principal. Pela Lei do Depósito Legal, toda publicação brasileira deve ter um exemplar arquivado na BN. Por dia, chegam 150 livros. De jornais, do “Diário de Caratinga” à “Gazeta de Alagoas”, chega o equivalente a uma banca por dia. Vai tudo para o tal espaço, de 16 mil metros quadrados, que poderia ser usado como cenário de filmes de guerra, como se os jornais empilhados formassem trincheiras.
O local está sujeito a um desastre a qualquer momento. Não há saída de emergência, os telhados têm infiltrações, as janelas estão quebradas, e não há qualquer sistema de combate a incêndios. Em julho, parte do piso cedeu. Em outubro, houve um princípio de incêndio, amainado pelos próprios servidores. Eles comparam a falta de segurança do local à da boate Kiss, cenário do incêndio que vitimou 241 pessoas em janeiro. É nesse estado que estão estocadas coleções preciosas da BN, como a de histórias em quadrinhos — das mais completas do mundo.
— Com as obras do Porto Maravilha no entorno, o anexo virou uma ilha cercada de poeira por todos os lados — compara um dos funcionários, sem se identificar. — Manter tudo higienizado é enxugar gelo.
Entre os servidores, a insatisfação com a gestão de Galeno vinha desde a incorporação da Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) pela Fundação Biblioteca Nacional, logo depois da sua posse. De acordo com os funcionários, a medida tirava o foco da administração da biblioteca. A crise apertou depois do acidente com o ar-condicionado, em maio. Houve a queda do reboco, em outubro, e a paralisação dos funcionários, para pleitear melhorias das condições de trabalho, em janeiro. No último dia 22, duas servidoras apresentaram cartas de demissão com fortes críticas à gestão do presidente.
No dia em que foi demitido, Galeno Amorim deixou com Marta Suplicy um relatório que batizou de “BN+200”. No documento, reconhece a série de problemas enfrentados durante sua gestão, exalta os feitos (como a ampliação do acervo digitalizado) e aponta o caminho que deve ser tomado pelo próximo gestor, com prazos que vão de 2014 a 2022. Na lista de desafios, iniciar as reformas para transformar o anexo num local adequado para guardar 80% do acervo da BN e reestruturar completamente o prédio-sede. Para isso, a ministra da Cultura já havia anunciado, em setembro, a liberação de R$ 70 milhões do BNDES.
— A Biblioteca Nacional precisa de uma intervenção forte. Não bastam ações pontuais. Só agora, por exemplo, foram feitos os testes finais para pôr em funcionamento o sistema wi-fi e instalar o primeiro data center da história da instituição. Acaba este mês o projeto executivo para toda a reforma elétrica do prédio. Vi isso de início e iniciei os procedimentos necessários para mudar o quadro. Os resultados aparecerão — declarou Galeno, logo após ser afastado do cargo.
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