
Biblioteca Nacional
Estrelas de papel contam história da Astronomia
Ptolomeu e Copérnico, Galileu, Kepler e Tycho Brahe. Todos eles estão representados, em alguns casos com primeiras edições, na exposição 'Estrelas de Papel: Livros de Astronomia dos séculos XIV a XVIII', patente nesta biblioteca até 31 de Julho. É a história da astronomia, e a forma como ela aconteceu em Portugal, que ali se conta através dos livros
São preciosidades, livros, raros e valiosos. Alguns nunca tinham sido mostrados em público e constituem um testemunho impressivo da história da astronomia, que também passou por Portugal. Estão lá tratados da esfera celeste do século XIV que foram usados para cálculos, anotados e estudados. O livro de Copérnico (primeira edição), no qual ele estabelece a teoria heliocêntrica, também. Há livros de Galileu e de Kepler, e há atlas que mostram visões sucessivamente complexas do céu. São as "Estrelas de Papel". Esta é uma exposição de livros de astronomia de vários arquivos portugueses, que foram publicados entre os séculos XIV e XVIII.
A mostra está patente na Biblioteca Nacional (BNP) até 31 de Julho e celebra o Ano Internacional da Astronomia, a decorrer.
Uma noção imediata que os cerca de 40 livros dão a quem percorre a exposição é a de que Portugal acompanhou a par e passo as novidades que iam surgindo nesta ciência ao longo daqueles séculos. Havia por cá quem estudasse e também quem acarinhasse e promovesse o seu estudo e a sua prática. Foi esse o caso do rei D. João V (1689-1750), que promoveu as actividades astronómicas e o ensino das ciências no País, com o apoio científico de vários astrónomos jesuítas. Foi D. João V que mandou construir, em 1722, dois observatórios em Lisboa, um no Paço e outro no Colégio jesuíta de Santo Antão (hoje o Hospital de São José), e mandou vir especialistas de fora. Mas, conta Henrique Leitão, comissário científico da exposição da BN e investigador do Centro de História das Ciências da Universidade de Lisboa "o monarca português alargou o seu braço mecenático à Europa e ganhou reputação internacional de protector das ciências".
É essa a história, até há pouco completamente ignorada em Portugal, que um dos livros presentes nesta exposição personifica. Trata-se do volume Hesperi et Phosphori Nova Phaenomena sive observationes circa planetam Veneris (Observações sobre o planeta Vénus), um livro publicado em Roma pelo astrónomo italiano Francesco Bianchini, que dedica a obra, a primeira com observações detalhadas sobre Vénus, ao rei português, o seu patrono.
Outra particularidade deste livro é que ele contém o desenho dos gomos para a reconstituição do planeta sob a forma de esfera. Este primeiro globo de Vénus da História tem "mares" com nomes de portugueses ilustres, incluindo o rei D. João V e o Infante D. Henrique, atribuídos pelo próprio autor do livro.
Por incrível que pareça, ignorava-se até há pouco que existiam alguns exemplares desta obra em arquivos portugueses, e só o trabalho de pesquisa de alguns físicos, como Cândido Marciano da Silva, permitiu reconstituição de toda esta história, que será contada numa conferência científica, no âmbito da exposição, no próximo dia 21 de Maio (ver caixa).
Esta não é no entanto a única raridade presente na mostra, que conta sobretudo com livros das colecções da própria Biblioteca Nacional, mas também da Biblioteca da Ajuda ou do Observatório Astronómico de Lisboa. Está lá a obra central da astronomia (a mais antiga das ciências exactas), Almagesto de Cláudio Ptolomeu (90-168), na sua primeira edição impressa, que durante muitos séculos foi o pilar teórico daquela ciência. Mas há ali também um mundo de obras raras e belíssimas, que contam uma história de ciência pouco conhecida. São estrelas de papel.



